Consegui há muitos anos um exemplar antigo do primeiro livro de crônicas do Rubem Braga: "O Conde e o Passarinho". É o exemplar 4.932 de uma versão publicada em 1961 pela "Editora do Autor", em capa dura, contendo ainda as crônicas reunidas em "O Morro do Isolamento" e um soneto que o Velho Braga acrescentou neste volume "para que ficasse junta toda a minha obra poética".
Nas edições mais recentes desse livro, não sei se por obra da censura ou se devido ao próprio autor, duas crônicas são sempre suprimidas: as "Reflexões em torno de Bidu" e as "Mais amplas reflexões em torno de Bidu". Publico aqui a primeira, em breve postarei a segunda. Creio que é a primeira vez que aparecem na internet...
Nessas crônicas estão contidas as concepções do Velho Braga sobre Arte e Revolução.
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| Teatro de Santa Isabel |
Reflexões em torno de Bidu
EXTRAORDINARIAMENTE
feio, o Teatro de Santa Isabel!
Alguns
“smokings” aparecem entre as roupas comuns, de casemira e de brim. Há senhoras
de vestido de baile e senhoras de chapéu. Há senhoritas de boina. As senhoritas
de boina se empoleiram pelas torrinhas. São leves, portáteis, lindas, como
passarinhos. Uma loura com um chapéu verde, a morena com uma boina marrom sobre
cabelos castanhos; e elas se dão adeusinhos de longe, vibrando os dedos finos
no ar, como se tocassem piano no espaço.
Entra
Bidu, Bidu! Vem com um vestido excelente no corpo excelente; flores de cores
misturadas feito uma cortina. A cortina é colante no corpo de Bidu. Aplico a
Bidu um adjetivo que aprendi na minha terra. Adjetivo que serve para mulheres
que não são lindíssimas, mas que exprime uma simpatia poderosa da carne e da
alma. Bidu é simplástica. Essa palavra singular foi um negro que me ensinou.
Ela
canta. Não entendo nada de canto, e com certeza vou dizer bobagem. Mas o que me
emociona demais nos cantos de Bidu é sua voz sempre humana. Mesmo quando é um
agudo, quando o som se desumaniza para ser um som puro, Bidu não perde seu
grande acento humano. É sempre uma voz de mulher, uma voz saída de uma garganta
de carne. Tenho ouvido grandes cantoras que me desgostam. Parece que a voz
delas em certo ponto perde a graça natural; a mulher desaparece, fica só a voz,
sem sexo nem humanidade, como se houvesse no palco um instrumento magnífico.
Bidu
é incondicionalmente mulher, sua voz é sempre a voz da fêmea.
Perdoe,
Bidu. Podeis entender em sentido figurado, perdoai se isso não vos agrada; sois
sempre mulher... mulata. Há uma ternura nas vozes das mulatas que não encontro
nas outras. Essa ternura, essa voz de mestiçagem, esse gosto de voz de mulata
eu sinto nos cantos de Bidu. Haveria outro modo de dizer isso. Diria que ela é
intensamente brasileira. Um dengue poderoso, uma graça de terra que se ama
porque se ama desde os primeiros amores. Aquele troço tristíssimo de Mozart que
ela enxertou na primeira parte: havia ali uma tristeza de tal jeito que só acho
comparação na tristeza da voz de lavadeira cantando na beira do rio, longe, de
tarde, uma lavadeira bem pobre, desinfeliz.
Vide
e ouvi como Bidu faz feminino o tom marcial da Marcha Turca. É um milagre de
feminilidade. Aqueles clarins que avançam e passam são clarins tocados em
bocas rubras de mulheres moças.
A
Ária da Loucura foi uma coisa enorme. Aconteceu que o flautista era um velhinho
de óculos. O velhinho começou sem acertar com o piano, um pouco alto de mais. O
pianista Ernani Braga (que não é meu tio) olhou para ele. O velhinho apitou
outra vez na flauta e encabulou irresistivelmente. A flauta fazia greve e
tremia nas suas mãos. E quando ele queria soprar uma nota, a flauta soprava
outra. O velhinho, soprando com medo de soprar, tremia demais; e então Bidu pôs
olhos lindos ferozes nele! Pra quê! O velhinho olhou Bidu e não teve coragem de
olhar o povo, quase que engulia a flauta, disse que estava mui-muito emocio...nado
e não po-podia tocar não podia não podia. Na plateia houve murmúrios e emoções.
Que pena sentimos do velhinho! Vai ver, pensei, que isso era o grande minuto da
vida dele. Ele esperou cinquenta anos para tocar flauta nos cantos de Bidu, era
sua glória número um. E na hora da glória encabulou, num fracasso completo. Que
pena! O velhinho se foi, martirizado. Depois soube que ele até que é um
velhinho especial na flauta, se chama Billoro, e veio do Rio de avião só para
tocar naquele minutinho ali. Mas que desgraça! Todo mundo atrapalhado, uns
sentindo raiva, outros com pena, outros quase chorando, outros querendo rebentar
na gargalhada. Uma grande desgraça do gênero humano.
Ernani
Braga ficou meio atrapalhado, teve de tocar flauta no piano.
Gounod
abriu a terceira parte. Depois veio “L’eclat de rire”. Risadas matinalíssimas
de uma frescura de delícia, teve de repetir. Ninguém mais cantará aquilo melhor
que Bidu. Depois a graça de “El Piropo” e “Mi Niña”, esta quase melosa de tão
doce.
A
Serenata de Alberto Costa não me agrada. No fim a “Canção da Felicidade”,
aquilo que já se sabe, a infalível tempestade de aplausos. Bidu fez gentileza
extrema de cantar mais três vezes, acabou com a Rosamonde e saiu do palco com
aquele seu jeito altamente gostoso e bonito de andar, de sorrir, de se curvar
agradecendo, qualquer coisa de uma Arací Côrtes, que fosse finíssima.
Foi
uma noite de delícias fartíssimas. É horrivelmente vergonhoso pensar que dos
450 mil habitantes do Recife só um punhadinho possa gozar tanta riqueza de
sentimento, tanta vibração de beleza. Àquela hora, meia noite, a imensa
população trabalhadora dormia extenuada para acordar hoje cedo e trabalhar
faminta... Mesmo se não houvesse tantas misérias tão graves, tão angustiosas,
tão básicas, bastaria esse fato em demais triste de nem todo mundo ter direito
de ouvir uma artista como Bidu para justificar uma revolução. Que não será a
arte quando ela não for mais um odioso privilégio de classe? Que riqueza
musical espantosa não se estraga para sempre no seio da massa, e como é
absolutamente necessário que todo mundo ouça artistas como Bidu! No Teatro de
Santa Isabel há uma placa de bronze com uma frase de Nabuco: “aqui vencemos a
abolição”. Mas não vi nenhum negro no recital. Os negros e os brancos pobres – o
enorme povo – não entra ali. Para ele estão fechadas as portas de todos os
altos bens da vida humana. Velho Nabuco, há muitas abolições a fazer ainda.
Rubem Braga.
Recife, setembro, 1935.

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