domingo, 9 de fevereiro de 2014

Mais amplas reflexões em torno de Bidu

Bidu Sayão (1902-1999)

ALCANÇOU um pouco de barulhinho uma crônica de reflexões em torno de Bidu Sayão, que publiquei no Diário de Pernambuco.
Discursando no palco do Santa Isabel, em nome dos estudantes, para Bidu, Abelardo Jurema teve a bondade de citar o que eu escrevera, achando uma tristeza o que é a arte de hoje: um odioso privilégio de classe.
“Z”, cronista de “Cousas da Cidade”, no Diário de Pernambuco, deu um remédio para minhas aflições. Não é preciso, disse ele, a gente fazer uma revolução para todo mundo ter direito de ouvir uma artista como Bidu. Onde eu pedia uma revolução, ele pede um microfone. Um microfone, plantado no palco, para o povo lá fora ouvir Bidu.
É um fato. Mas isso resolveria, no máximo, um problema de acústica; deixaria no mesmo o problema social. O primeiro desses problemas é físico; o segundo é humano.
Mesmo para instalar o microfone no Santa Isabel já seria necessária uma espécie de revolução. . .  Mais exatamente, seriam necessários dinheiro e boa vontade, duas coisas que não se gastam facilmente em benefício do povo. Mesmo aí seria fazer uma tremenda injustiça a Bidu dizer que ouvi-la é tão bom como ouvi-la e vê-la. Por mais que se pretenda falar em arte pura é indiscutível que Bidu de carne, cantando, vale muito mais que Bidu, apenas manifestada através de fios de metal.
Mas será preciso explicar que não se trata só de Bidu, não se trata de uma artista? Trata-se da arte. Eu disse que a arte é, hoje, um odioso privilégio de classe. Ninguém pode dizer que não. Isso é odioso e triste e não dá prejuízo só à massa. Dá prejuízo igual à arte.
Como é que a arte, hoje em dia, penetra o povo, e como é que o povo penetra na arte?
A arte chega ao povo em forma de migalhas. A multidão conhece os grandes artistas por tabela. Nunca os viu, nunca os sentiu. O Recife tem agora umas 472.764 criaturas. Dessa gente mais da metade não chega a viver na pobreza: vive na miséria. Vive pior que os porcos. Isso porque os porcos vivem até bem na lama dos mocambos. A lama é a pátria deles. Eles engordam, são fortes e até belos porcamente belos. Tão fortes que já os vi varando os frágeis mocambos, como querendo expulsar os homens de sua pátria. Não sabem que aqueles homens já foram expulsos de sua terra; que eles estão ali, na lama, exilados por um regime desumano.
Mas aquelas 250 ou 260 mil criaturas humanas que arte existe para elas? Homens e mulheres que trabalham como cães, sujeitos, inermes, a todas as explorações e opressões, vivendo na ignorância, na fome, na doença que arte há para eles? Desde que nasceram, seus instintos de arte foram negados, massacrados pela vida foram pisados na lama. Presos à miséria econômica, eles, se tivessem tempo e dinheiro, não teriam mais gosto para as finas manifestações da arte.
Mas a gente pode sair, na calma, dos mocambos, trepar num bonde, entrar nas salinhas de visita da pequena burguesia. Essa gente remediada, esse povo das famílias modestas e das pensões baratas, tem direito à arte? Teve uma educação melhorzinha. Bastou para sentir a necessidade da arte. Mas não tem meios de satisfazer essa necessidade e, portanto, de educar essa necessidade. Daí esse artificialismo com que se comporta diante da arte. Artificialismo que invade e contamina a própria arte. Mesmo quando existe numa criatura da classe média uma vocação séria, imperiosa, para uma arte, essa vocação luta com tropeços enormes para se realizar e, o mais das vezes, não é aproveitada, e só raríssimamente é plenamente aproveitada. A pequena burguesia não é burra em si. Como explicar, então, a miséria dos quadrinhos da sala de jantar, as baboseiras do rádio ou do piano da sala de visitas, a infâmia dos biscuits, coloridos no quarto de casal, a idiotice azul dos romances e do álbum de poesias da moça, a mixórdia cretina dos livros do rapaz, o mau gosto terrível da própria casa? Será possível que esses milhares de famílias não sejam capazes de sentir de um modo mais fino a pintura, a música, a escultura, a poesia, a prosa, a arquitetura? O que há aí, de fato, é uma incapacidade... econômica. Essa incapacidade econômica força a incapacidade mental. E como essas famílias, apesar de tudo, têm uma certa influência econômica pelo seu número, formando o que se diz “o grande público”, a arte, por necessidades comerciais, tem de algum modo de se adaptar a elas, isto é, tem de descer a um nível inferior.
Agora o microfone. . . Sim, a técnica é uma bela coisa, mas não se pode esquecer que ela também, embora criada pelo povo, não está nas mãos do povo. Vêde uma questão de música: discos. É, na verdade, admirável, que a voz humana se conserve e se transmita assim. Mas olhemos a realidade. Quem faz os discos no Brasil? Existem algumas casas gravadoras, outras vendedoras. São empresas estrangeiras, que agem de comum acordo. Isso é tão bem feito que a Casa Edison ganhou 216 contos com o samba “Jura”, de Sinhô, e Sinhô morreu na miséria. Pode-se dizer que essas casas “incentivam” a música? Não. Elas apenas exploram a música brasileira, deixando na miséria nossos musicistas e obrigando-os, se quiserem ganhar um pouco mais de dinheiro, a produzir a torto e a direito, para aproveitar comercialmente o nome obtido com as produções boas. O imperialismo age aí, como age em todos os terrenos: “incentiva” explorando terrivelmente a matéria prima, escravizando os produtores, proibindo um verdadeiro progresso musical. Age de acordo com seus interesses próprios, comercialíssimos, e só “serve ao público” na medida em que isso é absolutamente necessário para amontoar dinheiro. É um cancro, e nada mais: um cancro já impossível de disfarçar.
Quando a música dos brasileiros for aproveitada pelos próprios brasileiros, sem essa nojenta organização comercial, incentivando os verdadeiros valores em benefício da arte e da massa ela não será outra coisa? Poderia citar aqui musicistas de grande valor que, por não se sujeitarem ao vergonhoso comércio da arte, têm de ganhar a vida em profissões estranhas, esfalfantes, sacrificando seu espírito, para não sacrificar seus princípios de respeito ao público. Para dar um só exemplo, e pernambucano, citarei Capiba, esse inestimável Capiba. Quantos eu poderia citar?
Qual é o artista que não sentiu com bastante crueldade a contingência de comercializar a arte para poder se manter nesse regime? Que prejuízo enorme isso não representa para o artista, para a massa, para a arte?
Só no seio da massa, quando a massa puder verdadeiramente viver a vida em toda plenitude, livre de seus exploradores, a arte pode tomar seus grandes rumos, seus grandes destinos. Só em um regime de justiça social pode haver, de fato, o intenso aproveitamento de valores dos valores puríssimos que o regime atual reduz, nega ou perverte.
Quero terminar esta lenga-lenga dando a palavra a um preto, a um preto do povo, anônimo, neste trecho final da reportagem da Folha do Povo, sobre o concerto da encantadora Bidu:
“Grande número de pessoas ouvia o rouxinol, através das janelas dos lados do teatro. Mandaram fechar. Aqueles ouvidos não eram dignos de ouvir Bidu Sayão. Alegaram que fecharam as janelas devido a corrente de ar. Um preto, que estava encantado com a voz maravilhosa, replicou: “Faz mal, não. Quando chegar a outra corrente, vocês não podem mais fechar. . . E a gente ouve, à vontade. . .”
Sim, todas as janelas e portas que separam o povo da arte serão arrebentadas. Entrará por elas o vento puro e livre da grande humanidade. Será o “caos” para os que exploram a arte, para os que exploram a vida.
Para a massa e para a arte será o grande minuto inicial da espantosa libertação.


Rubem Braga.
Recife, setembro, 1935.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Reflexões em torno de Bidu

Consegui há muitos anos um exemplar antigo do primeiro livro de crônicas do Rubem Braga: "O Conde e o Passarinho". É o exemplar 4.932 de uma versão publicada em 1961 pela "Editora do Autor", em capa dura, contendo ainda as crônicas reunidas em "O Morro do Isolamento" e um soneto que o Velho Braga acrescentou neste volume "para que ficasse junta toda a minha obra poética".

Nas edições mais recentes desse livro, não sei se por obra da censura ou se devido ao próprio autor, duas crônicas são sempre suprimidas: as "Reflexões em torno de Bidu" e as "Mais amplas reflexões em torno de Bidu". Publico aqui a primeira, em breve postarei a segunda. Creio que é a primeira vez que aparecem na internet...

Nessas crônicas estão contidas as concepções do Velho Braga sobre Arte e Revolução.

Teatro de Santa Isabel



Reflexões em torno de Bidu

EXTRAORDINARIAMENTE feio, o Teatro de Santa Isabel!
 Alguns “smokings” aparecem entre as roupas comuns, de casemira e de brim. Há senhoras de vestido de baile e senhoras de chapéu. Há senhoritas de boina. As senhoritas de boina se empoleiram pelas torrinhas. São leves, portáteis, lindas, como passarinhos. Uma loura com um chapéu verde, a morena com uma boina marrom sobre cabelos castanhos; e elas se dão adeusinhos de longe, vibrando os dedos finos no ar, como se tocassem piano no espaço.
Entra Bidu, Bidu! Vem com um vestido excelente no corpo excelente; flores de cores misturadas feito uma cortina. A cortina é colante no corpo de Bidu. Aplico a Bidu um adjetivo que aprendi na minha terra. Adjetivo que serve para mulheres que não são lindíssimas, mas que exprime uma simpatia poderosa da carne e da alma. Bidu é simplástica. Essa palavra singular foi um negro que me ensinou.
Ela canta. Não entendo nada de canto, e com certeza vou dizer bobagem. Mas o que me emociona demais nos cantos de Bidu é sua voz sempre humana. Mesmo quando é um agudo, quando o som se desumaniza para ser um som puro, Bidu não perde seu grande acento humano. É sempre uma voz de mulher, uma voz saída de uma garganta de carne. Tenho ouvido grandes cantoras que me desgostam. Parece que a voz delas em certo ponto perde a graça natural; a mulher desaparece, fica só a voz, sem sexo nem humanidade, como se houvesse no palco um instrumento magnífico.
Bidu é incondicionalmente mulher, sua voz é sempre a voz da fêmea.
Perdoe, Bidu. Podeis entender em sentido figurado, perdoai se isso não vos agrada; sois sempre mulher... mulata. Há uma ternura nas vozes das mulatas que não encontro nas outras. Essa ternura, essa voz de mestiçagem, esse gosto de voz de mulata eu sinto nos cantos de Bidu. Haveria outro modo de dizer isso. Diria que ela é intensamente brasileira. Um dengue poderoso, uma graça de terra que se ama porque se ama desde os primeiros amores. Aquele troço tristíssimo de Mozart que ela enxertou na primeira parte: havia ali uma tristeza de tal jeito que só acho comparação na tristeza da voz de lavadeira cantando na beira do rio, longe, de tarde, uma lavadeira bem pobre, desinfeliz.
Vide e ouvi como Bidu faz feminino o tom marcial da Marcha Turca. É um milagre de feminilidade. Aqueles clarins que avançam e passam são clarins tocados em bocas rubras de mulheres moças.
A Ária da Loucura foi uma coisa enorme. Aconteceu que o flautista era um velhinho de óculos. O velhinho começou sem acertar com o piano, um pouco alto de mais. O pianista Ernani Braga (que não é meu tio) olhou para ele. O velhinho apitou outra vez na flauta e encabulou irresistivelmente. A flauta fazia greve e tremia nas suas mãos. E quando ele queria soprar uma nota, a flauta soprava outra. O velhinho, soprando com medo de soprar, tremia demais; e então Bidu pôs olhos lindos ferozes nele! Pra quê! O velhinho olhou Bidu e não teve coragem de olhar o povo, quase que engulia a flauta, disse que estava mui-muito emocio...nado e não po-podia tocar não podia não podia. Na plateia houve murmúrios e emoções. Que pena sentimos do velhinho! Vai ver, pensei, que isso era o grande minuto da vida dele. Ele esperou cinquenta anos para tocar flauta nos cantos de Bidu, era sua glória número um. E na hora da glória encabulou, num fracasso completo. Que pena! O velhinho se foi, martirizado. Depois soube que ele até que é um velhinho especial na flauta, se chama Billoro, e veio do Rio de avião só para tocar naquele minutinho ali. Mas que desgraça! Todo mundo atrapalhado, uns sentindo raiva, outros com pena, outros quase chorando, outros querendo rebentar na gargalhada. Uma grande desgraça do gênero humano.
Ernani Braga ficou meio atrapalhado, teve de tocar flauta no piano.
Gounod abriu a terceira parte. Depois veio “L’eclat de rire”. Risadas matinalíssimas de uma frescura de delícia, teve de repetir. Ninguém mais cantará aquilo melhor que Bidu. Depois a graça de “El Piropo” e “Mi Niña”, esta quase melosa de tão doce.
A Serenata de Alberto Costa não me agrada. No fim a “Canção da Felicidade”, aquilo que já se sabe, a infalível tempestade de aplausos. Bidu fez gentileza extrema de cantar mais três vezes, acabou com a Rosamonde e saiu do palco com aquele seu jeito altamente gostoso e bonito de andar, de sorrir, de se curvar agradecendo, qualquer coisa de uma Arací Côrtes, que fosse finíssima.
Foi uma noite de delícias fartíssimas. É horrivelmente vergonhoso pensar que dos 450 mil habitantes do Recife só um punhadinho possa gozar tanta riqueza de sentimento, tanta vibração de beleza. Àquela hora, meia noite, a imensa população trabalhadora dormia extenuada para acordar hoje cedo e trabalhar faminta... Mesmo se não houvesse tantas misérias tão graves, tão angustiosas, tão básicas, bastaria esse fato em demais triste de nem todo mundo ter direito de ouvir uma artista como Bidu para justificar uma revolução. Que não será a arte quando ela não for mais um odioso privilégio de classe? Que riqueza musical espantosa não se estraga para sempre no seio da massa, e como é absolutamente necessário que todo mundo ouça artistas como Bidu! No Teatro de Santa Isabel há uma placa de bronze com uma frase de Nabuco: “aqui vencemos a abolição”. Mas não vi nenhum negro no recital. Os negros e os brancos pobres – o enorme povo – não entra ali. Para ele estão fechadas as portas de todos os altos bens da vida humana. Velho Nabuco, há muitas abolições a fazer ainda.

Rubem Braga.
Recife, setembro, 1935.