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| Bidu Sayão (1902-1999) |
ALCANÇOU
um pouco de barulhinho uma crônica de reflexões em torno de Bidu Sayão, que
publiquei no Diário de Pernambuco.
Discursando
no palco do Santa Isabel, em nome dos estudantes, para Bidu, Abelardo Jurema
teve a bondade de citar o que eu escrevera, achando uma tristeza o que é a arte
de hoje: um odioso privilégio de classe.
“Z”,
cronista de “Cousas da Cidade”, no Diário
de Pernambuco, deu um remédio para minhas aflições. Não é preciso, disse
ele, a gente fazer uma revolução para todo mundo ter direito de ouvir uma
artista como Bidu. Onde eu pedia uma revolução, ele pede um microfone. Um
microfone, plantado no palco, para o povo lá fora ouvir Bidu.
É
um fato. Mas isso resolveria, no máximo, um problema de acústica; deixaria no
mesmo o problema social. O primeiro desses problemas é físico; o segundo é
humano.
Mesmo
para instalar o microfone no Santa Isabel já seria necessária uma espécie de
revolução. .
. Mais exatamente, seriam necessários dinheiro e
boa vontade, duas coisas que não se gastam facilmente em benefício do povo.
Mesmo aí seria fazer uma tremenda injustiça a Bidu dizer que ouvi-la é tão bom como
ouvi-la e vê-la. Por mais que se pretenda falar em arte pura é indiscutível que
Bidu de carne, cantando, vale muito mais que Bidu, apenas manifestada através
de fios de metal.
Mas
será preciso explicar que não se trata só de Bidu, não se trata de uma artista?
Trata-se da arte. Eu disse que a arte é, hoje, um odioso privilégio de classe.
Ninguém pode dizer que não. Isso é odioso e triste e não dá prejuízo só à
massa. Dá prejuízo igual à arte.
Como
é que a arte, hoje em dia, penetra o povo, e como é que o povo penetra na arte?
A
arte chega ao povo em forma de migalhas. A multidão conhece os grandes artistas
por tabela. Nunca os viu, nunca os sentiu. O Recife tem agora umas 472.764
criaturas. Dessa gente mais da metade não chega a viver na pobreza: vive na
miséria. Vive pior que os porcos. Isso porque os porcos vivem até bem na lama
dos mocambos. A lama é a pátria deles. Eles engordam, são fortes e até belos —
porcamente
belos. Tão fortes que já os vi varando os frágeis mocambos, como querendo
expulsar os homens de sua pátria. Não sabem que aqueles homens já foram
expulsos de sua terra; que eles estão ali, na lama, exilados por um regime
desumano.
Mas
aquelas 250 ou 260 mil criaturas humanas —
que arte existe para elas? Homens e
mulheres que trabalham como cães, sujeitos, inermes, a todas as explorações e
opressões, vivendo na ignorância, na fome, na doença —
que arte há para eles?
Desde que nasceram, seus instintos de arte foram negados, massacrados pela vida —
foram pisados na lama. Presos à miséria econômica, eles, se tivessem tempo e
dinheiro, não teriam mais gosto para as finas manifestações da arte.
Mas
a gente pode sair, na calma, dos mocambos, trepar num bonde, entrar nas
salinhas de visita da pequena burguesia. Essa gente remediada, esse povo das
famílias modestas e das pensões baratas, tem direito à arte? Teve uma educação
melhorzinha. Bastou para sentir a necessidade da arte. Mas não tem meios de
satisfazer essa necessidade —
e, portanto, de educar essa necessidade. Daí esse
artificialismo com que se comporta diante da arte. Artificialismo que invade e
contamina a própria arte. Mesmo quando existe numa criatura da classe média uma
vocação séria, imperiosa, para uma arte, essa vocação luta com tropeços enormes
para se realizar e, o mais das vezes, não é aproveitada, e só raríssimamente é
plenamente aproveitada. A pequena burguesia não é burra em si. Como explicar,
então, a miséria dos quadrinhos da sala de jantar, as baboseiras do rádio ou do
piano da sala de visitas, a infâmia dos biscuits,
coloridos no quarto de casal, a idiotice azul dos romances e do álbum de
poesias da moça, a mixórdia cretina dos livros do rapaz, o mau gosto terrível
da própria casa? Será possível que esses milhares de famílias não sejam capazes
de sentir de um modo mais fino a pintura, a música, a escultura, a poesia, a
prosa, a arquitetura? O que há aí, de fato, é uma incapacidade... econômica. Essa
incapacidade econômica força a incapacidade mental. E como essas famílias,
apesar de tudo, têm uma certa influência econômica pelo seu número, formando o
que se diz “o grande público”, a arte, por necessidades comerciais, tem de
algum modo de se adaptar a elas, isto é, tem de descer a um nível inferior.
Agora
o microfone. .
. Sim, a técnica é uma
bela coisa, mas não se pode esquecer que ela também, embora criada pelo povo,
não está nas mãos do povo. Vêde uma questão de música: discos. É, na verdade,
admirável, que a voz humana se conserve e se transmita assim. Mas olhemos a
realidade. Quem faz os discos no Brasil? Existem algumas casas gravadoras,
outras vendedoras. São empresas estrangeiras, que agem de comum acordo. Isso é
tão bem feito que a Casa Edison ganhou 216 contos com o samba “Jura”, de Sinhô,
e Sinhô morreu na miséria. Pode-se dizer que essas casas “incentivam” a música?
Não. Elas apenas exploram a música brasileira, deixando na miséria nossos
musicistas e obrigando-os, se quiserem ganhar um pouco mais de dinheiro, a
produzir a torto e a direito, para aproveitar comercialmente o nome obtido com
as produções boas. O imperialismo age aí, como age em todos os terrenos: “incentiva”
explorando terrivelmente a matéria prima, escravizando os produtores, proibindo
um verdadeiro progresso musical. Age de acordo com seus interesses próprios,
comercialíssimos, e só “serve ao público” na medida em que isso é absolutamente
necessário para amontoar dinheiro. É um cancro, e nada mais: um cancro já
impossível de disfarçar.
Quando
a música dos brasileiros for aproveitada pelos próprios brasileiros, sem essa
nojenta organização comercial, incentivando os verdadeiros valores em benefício
da arte e da massa —
ela não será outra coisa? Poderia citar aqui musicistas de
grande valor que, por não se sujeitarem ao vergonhoso comércio da arte, têm de
ganhar a vida em profissões estranhas, esfalfantes, sacrificando seu espírito,
para não sacrificar seus princípios de respeito ao público. Para dar um só
exemplo, e pernambucano, citarei Capiba, esse inestimável Capiba. Quantos eu
poderia citar?
Qual
é o artista que não sentiu com bastante crueldade a contingência de
comercializar a arte para poder se manter nesse regime? Que prejuízo enorme
isso não representa para o artista, para a massa, para a arte?
Só
no seio da massa, quando a massa puder verdadeiramente viver a vida em toda plenitude,
livre de seus exploradores, a arte pode tomar seus grandes rumos, seus grandes
destinos. Só em um regime de justiça social pode haver, de fato, o intenso
aproveitamento de valores —
dos valores puríssimos que o regime atual reduz,
nega ou perverte.
Quero
terminar esta lenga-lenga dando a palavra a um preto, a um preto do povo,
anônimo, neste trecho final da reportagem da Folha do Povo, sobre o concerto da encantadora Bidu:
“Grande
número de pessoas ouvia o rouxinol, através das janelas dos lados do teatro.
Mandaram fechar. Aqueles ouvidos não eram dignos de ouvir Bidu Sayão. Alegaram
que fecharam as janelas devido a corrente de ar. Um preto, que estava encantado
com a voz maravilhosa, replicou: “Faz mal, não. Quando chegar a outra corrente,
vocês não podem mais fechar. .
. E a gente ouve, à
vontade. .
.”
Sim,
todas as janelas e portas que separam o povo da arte serão arrebentadas.
Entrará por elas o vento puro e livre da grande humanidade. Será o “caos” para
os que exploram a arte, para os que exploram a vida.
Para
a massa e para a arte será o grande minuto inicial da espantosa libertação.
Rubem Braga.
Recife, setembro, 1935.

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