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| Cena do filme |
Ontem cometi um grave erro. Mal tinha acabado de ler
“As Virgens Suicidas”, o romance que projetou o novato Jeffrey Eugenides
(vencedor do Pulitzer em 2003 com “Middlesex”), e resolvi checar o filme.
Antes de fazer essa besteira, pensei comigo mesmo
que se o filme fosse ruim, iria estragar o estado de espírito que eu acabara de
atingir ao concluir a leitura. A propósito, no momento em que fechei o livro,
me escapou uma expressão que aparece em dada altura da narrativa: “Puta merda!”
De fato, o livro é meio desconcertante. Todos nós já lemos algo ou já ouvimos
algo a respeito do suicídio, e eu imaginei que encontraria neste livro algumas
explicações triviais, baseadas em fragmentos de interpretação sociológica.
Felizmente me enganei. Não há nada no livro que se pareça com “ideologização”,
o que é uma grande coisa, porque a arte não precisa estar comprometida com a
sociologia ou com qualquer outra ciência. Se ela quiser se enriquecer com a
ciência, ótimo. Mas não há e não deve haver, em princípio, na criação
literária, qualquer obrigação com a realidade.
Cinema e literatura são formas de arte diferentes,
e as comparações são sempre mais ou menos injustas. Mas é certo que existem
transposições muito bem sucedidas de obras literárias para o cinema, como
“Apocalypse Now”, que adapta e enriquece o clássico “O Coração das Trevas”, de
Joseph Conrad, ou “O Poderoso Chefão”, adaptação do livro de Mario Puzo,
ambos dirigidos por Francis Ford Copolla. Foi isso o que me veio à mente ao
observar que Sofia Copolla estava à frente de “As Virgens Suicidas”...
Infelizmente, a tecnologia disponível hoje nos
facilita a prática de atos insanos. É muito fácil e rápido “baixar” um filme, e
você não precisa de nada além de uma ou duas horas livres para vê-lo...
Consultando algumas páginas na Internet, fiquei
surpreso ao verificar que o filme foi elogiado, pois embora esteja um pouco
acima da média, não capta absolutamente nada da profundidade que existe na obra
original. No filme, os suicídios são completamente inexplicáveis. As meninas
Lisbon raramente parecem pertencer a uma família de protestantes ortodoxos. O
lar em que vivem não parece opressivo, e exceto por alguns crucifixos aqui e
ali, e pelos atos repressivos da mãe, não temos qualquer ideia sobre seu isolamento do mundo.
Outro detalhe: elas aparecem o tempo todo maquiadas, não figuram como seres
mais ou menos estranhos, como ocorre com as meninas cujos pais são aferrados a
certas concepções religiosas (no Brasil, temos o caso das famílias evangélicas,
em que as meninas são obrigadas a usar aquelas saias enormes e feias e cabelos
longos e descuidados, ou o caso das adventistas, que são proibidas de
usar maquiagem ou brincos). Nada disso transparece satisfatoriamente na tela.
Alguns episódios da trama estão bem retratados. Mas
este êxito parcial não é suficiente para cobrir as falhas, que são muitas.
Exemplo: onde foram parar as efeméridas? Que poderosa metáfora de uma vida
fugaz e sem sentido, como a das meninas, e que ficou totalmente ausente na
versão para o cinema... E o inverno? A neve que as manteve presas em casa por
três meses, agravando a reclusão e o luto causados pela morte de Cecília? A
passagem do tempo também ficou muito mal retratada. Não vemos o apodrecimento e a
morte da casa. As personagens parecem não sofrer nada com a morte de Cecília.
Em suma, a morte e suas muitas manifestações, que avançam gradualmente até
arrastar toda a família em seu turbilhão, esteve quase completamente ausente no
filme.
E, finalmente, a injustiça cometida com Lux Lisbon.
Ela não era uma adolescente mais ou menos sexy e “depravada”, como foi
encenada. Lux estava lutando para viver, e sua fase de loucura, em que começa a
receber rapazes no telhado de casa, era uma forma de fuga, a fuga impossível,
que ela só encontrará em sua derradeira viagem. Todo o seu comportamento era
uma reação desesperada contra a aproximação da morte, e não apenas o exercício
simples e fútil de uma sexualidade recém-descoberta e até então contida.
Enfim, se você quer ler um bom livro, leia essa
pequena obra-prima. Se não quiser que a profunda reflexão sobre a vida e a
morte, o sentido de nossa efêmera existência, seja prejudicada por uma
interpretação fraca e empobrecedora, não veja o filme. Apesar do modo como
foram retratadas no cinema (Lux, em particular), continuaremos amando as meninas
Lisbon, escondidos em nossa casa na árvore, remexendo para sempre o dossiê das
lembranças, mesmo depois de velhos! (Aliás, a ausência da casa na árvore é
também frustrante!)
***

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