No início do mês, houve uma revolta nas estações de trem da zona norte do Rio de Janeiro. Os passageiros atearam fogo em alguns vagões das composições da "Supervia". O assunto foi destaque nos telejornais durante alguns dias. Pouco depois, apareceu a notícia de um rapaz que perdera um braço após ser atropelado por um trem...
A situação dos transportes públicos no país foi o elemento determinante para a eclosão das "Jornadas de Junho". O que algumas pessoas não sabem é que o suplício dos trabalhadores nos trens e ônibus dos subúrbios perdura há muitas décadas.
Veja como o assunto foi tratado por Humberto de Campos, provavelmente no início da década de 1930, ao relatar a morte de um trabalhador que caiu de um trem.
A situação dos transportes públicos no país foi o elemento determinante para a eclosão das "Jornadas de Junho". O que algumas pessoas não sabem é que o suplício dos trabalhadores nos trens e ônibus dos subúrbios perdura há muitas décadas.
Veja como o assunto foi tratado por Humberto de Campos, provavelmente no início da década de 1930, ao relatar a morte de um trabalhador que caiu de um trem.
“A Eterna Imprudência”
Humberto
de Campos[i]
Quando
o pai, Raimundo Preto, lhe morreu, caindo de um andaime do terceiro andar em
que trabalhava como pedreiro, o Ezequiel não havia completado, ainda, oito
anos. Raimundo Preto estivera dois dias com febre e constipação, em casa,
quando teve medo de ser dispensado pelo patrão, e voltou ao trabalho. De
repente sentiu uma tonteira, e procurou amparar-se. O braço encontrou apenas o
vácuo, e ele se despenhou lá do alto, vindo bater com a espinha nas tábuas do
andaime do segundo andar. Quando o corpo chegou ao solo, um filete de sangue
lhe escorreu da boca, fazendo uma pequena poça no barro úmido espapaçado no
chão. No dia seguinte, saía do necrotério, para ser sepultado como indigente.
Durante
um mês, a Maria Rosa chorou o marido, à noite, em silêncio. De dia procurava
emprego, inutilmente. Não tinha onde deixar o filho pequeno, e ninguém queria
criada que se fizesse acompanhar de criança. No fim do mês, não pôde pagar o
aluguel da casinha de taipa em que morava, nas proximidades da estação de
Todos-os-Santos. Foi quando encontrou Honorato, graxeiro da Central do Brasil,
que lhe propôs viverem juntos. E aceitou.
O
Ezequiel era, então, um mulatinho miúdo e amarelo, de olhos redondos em que as
pupilas escuras quase desapareciam no branco da esclerótica, e apresentando na
miséria do físico todos os estigmas das crianças da classe operária que vivem
nos subúrbios do Rio de Janeiro. Alimentado, durante anos seguidos, unicamente
com feijão, farinha e arroz, que um pedaço de carne longinquamente temperava, o
seu organismo desenvolvia-se sem vitaminas, num espetáculo de debilidade e
fadiga que a sua vontade não conseguia vencer. Criou-se, entretanto, fez-se
pedreiro, numa espécie de homenagem ao obscuro trabalhador que o pusera no
mundo. Aos dezoito anos, quando conseguiu o primeiro salário de servente, a mãe
deixou o sétimo ou oitavo companheiro de emergência, e ele passou a manter a
casa. A velha morreu, porém. E como cada homem, na sua opinião, tinha o dever,
na terra, de sustentar pelo menos uma mulher, o Ezequiel foi a procura de uma,
e casou-se. E começou a lançar ao mundo filhos tão fracos, tristes e doentes
como o pai.
O
seu destino de operário em construções não era diverso daquele que tivera
Raimundo Preto. Levantava-se às quatro horas da manhã e tomava, para a cidade,
o trem das cinco ou das cinco e meia, conforme o bairro em que estivesse trabalhando,
em Santa Teresa ou em Copacabana, em São Cristóvão ou no Leme. Quando vinha,
trazia, porém, já, em uma pequena lata de manteiga ou de azeitona, o almoço
magro, constituído, geralmente, pelo resto do arroz e do feijão do jantar, a
que a mulher juntava um pedaço de carne assada na véspera. As botas que
calçava, pesadas e grossas, estavam permanentemente encharcadas. E, quando
chovia, e se molhava em caminho, era com essa roupa molhada que regressava à
tarde, após haver passado o dia inteiro metido na roupa úmida, e empapada de
barro, com que sobrepunha tijolos ou rebocava paredes, levantando bangalôs elegantes
ou vastos arranha-céus de vinte andares. Mas, também, que alegria a sua,
quando, terminada a obra, a via, graciosa ou gigantesca, entregue ao
proprietário! Com que orgulho a mirava, contente, após a retirada dos andaimes,
pelos quais se movera durante meses, pondo um pouco da sua alma na volúpia com
que ligava o cimento ou no cuidado com que fixava o ladrilho! A colher com que
alisava o barro possuía a sensibilidade humana dos seus dedos, e corria por ele
lentamente, sensualmente, um corpo de mulher ardente e moça. Daí a afeição que
o prendia às casas que havia ajudado a construir. Aos domingos, vinha para a
cidade, e percorria diversos bairros, afim de contemplar cada uma, a ver como
iam, e a sofrer quando as achava com a pintura descorada ou sem trato, com a
mágoa de um pai que vai visitar a filha casada e a encontra enferma ou brutalizada
pelo genro. Certa vez, encantado com um palacete em cuja construção trabalhara
em Ipanema, consumira três domingos seguidos, a manha inteira a contemplá-lo, comovido,
e feliz, como um noivo idoso que fita a noiva adolescente, ou como um pai que
mira o primeiro filho. O morador do palacete estranhou a presença insistente
daquele preto, e o modo por que olhava para a sua casa. Telefonou para a
Polícia. E o Ezequiel passou todo o resto do domingo no xadrez da delegacia.
Mesmo assim, não se emendou. No domino seguinte, descia, de novo, no Sampaio,
da casinhola de taipa em que morava para fiscalizar, com ciúme paterno, os
arranha-céus, os bangalôs e os palacetes alheios.
Trabalhando
sempre na umidade e passando dias inteiros com a roupa molhada unida ao corpo,
o Ezequiel estava, aos trinta anos, com as articulações enferrujadas pelo
artritismo, e apunhalado de dores que lhe arrancavam gemidos surdos e heroicos,
de touro no momento da ferra. Aos trinta e cinco, era com dificuldade que subia
uma escada para trabalhar nos andaimes. Os remédios custavam, cada vidro, um
dia de salário. E ele preferia um mês de sofrimento a ver, durante uma hora, um
filho com fome. A dor que mais dói num pai é aquela que lhe chega através da
carne dos filhos.
A
maior tortura do Ezequiel era, entretanto, o regresso para casa, à tarde, no
trem dos subúrbios, da Central do Brasil. Se aos homens sadios constituía uma
luta a conquista de um lugar nos carros, a ele se tornava isso impossível.
Empurrado, comprimido, atirado para frente contra a sua própria vontade, o mais
que conseguia era, diariamente, um lugar na plataforma, espremido, de pé entre
soldados alegres e fortes e outros operários magros e amarelos, mas brincalhões
naquele tumulto de carnes suadas. Outros havia, porém, que não conseguiam nem isso.
Alguns viajavam agarrados para fora dos carros, segurando-se nas ferragens com
os pés e as mãos. Outros iam em cima, na cobertura dos vagões. Às vezes, no
cruzamento de dois trens, o ar deslocado levava o chapéu de um ou de outro, que
não podia segurá-lo por estar agarrado ao carro com uma das mãos, e com a outra
ocupada pelas compras feitas ou pela pequena lata em que trouxera o almoço.
Havia então, gargalhadas, pilhérias, assobios, que se multiplicavam pelos
outros carros na celebração ruidosa do acontecimento insignificante.
—
Tire a cabeça do caminho, senão vai também.
—
Olha o teu miolo que ficou dentro do chapéu, desgraçado!
—
Segura o pescoço, banana! Fiau!...
Não
raro, em lugar do chapéu, ia o dono. O “rabecão” da Polícia vinha buscar o
morto para o necrotério. E a viagem continuava. E a vida também.
Conhecendo
a pequena resistência das suas pernas, o Ezequiel não ia, jamais, pendurado no
carro, pelo lado de fora. Preferia esperar um ou dois trens, até conseguir um
lugar menos perigoso, na plataforma. Naquele dia, porém, parecia que todos os
operários dos subúrbios se haviam combinado para deixar o serviço à mesma hora.
Os trens partiam repletos, e a estação Pedro II permanecia cheia de gente
cansada e barulhenta, aguardando condução. Uma operária gorda, que há duas
horas tentava tomar um carro, vira-se de tal modo comprimida pela multidão que
tivera criança ali mesmo, socorrida pela Assistência Municipal. Com a roupa molhada
no corpo, Ezequiel começou a sentir uns arrepios, como de febre. De repente,
tonteou e teria caído, se o não amparassem. Anoitecia, e resolveu ir, de
qualquer modo, no primeiro trem. Empregou para isso todos os esforços,
empurrado os outros, comprimindo, fazendo o que os outros costumavam fazer. O mais,
no entanto, que conseguiu foi a extremidade da plataforma de um carro de
segunda classe, mas com um espaço tão reduzido que teve de apoiar o outro pé no
carro seguinte. De súbito, a máquina uivou agudamente, e pôs-se em movimento. Ezequiel
segurou-se com mais força e começou a pensar:
—
A vida é, na verdade, muito cheia de injustiças. Estes homens todos que vão
aqui, trabalham o dia inteiro para ganhar uma miséria. Almoçaram um pouco de
feijão com um punhado de farinha. E para chegarem à casa, de regresso, têm que
ir assim como eu vou. E ninguém se importa com isso... Eu ainda era menino, e já
se falava em aumentar o número dos trens dos subúrbios à tarde e de manhã, na
hora do pobre vir para o trabalho e voltar do trabalho. E no meu tempo é a
mesma coisa que no tempo do meu pai...
O
trem fizera uma curva, atirando-lhe para cima dos vizinhos. Ezequiel agarrou-se
ainda mais nos dois ferros da plataforma. E continuou, consigo mesmo:
—
Não é possível que pobre e rico sejam igualmente filhos de Deus. Uns são
filhos, outros são enteados... Nenhum dos que vão aqui como pingente, viaja
assim por gosto; mas todos vão rindo e brincando, para esquecer que são
desgraçados.
Nesse
momento, o trem fez uma curva. O carro deu um safanão violento, como um animal
que desse um coice para libertar-se de alguém que lhe estivesse na garupa.
Ezequiel tentou segurar-se. Mas foi tarde. Os dedos não se mostraram obedientes
à sua vontade, e o seu corpo mergulhou entre os dois carros, desaparecendo
imediatamente.
Vinte
gritos partiram de vinte bocas. Aquilo era, porém, um espetáculo de quase todos
os dias. O trem continuou, por isso, até à estação próxima, onde foram tomadas providências
para a remoção dos despojos.
Nos
dias seguintes os jornais noticiavam, em três ou quatro linhas, uma nova morte
nos trens da Central. Uma das notícias, a mais extensa, estava assim redigida:
A
viúva e os filhos de Ezequiel não tiveram conhecimento dessa notícia. Na tarde
do outro dia, vieram ao necrotério, na cidade, para ver sair o corpo do seu
marido e pai. E no necrotério mesmo se separaram, a viúva para procurar
emprego, as crianças para pedir esmola.
***
[i] Das Obras Completas de Humberto de Campos, publicadas pela W. M.
Jackson Inc. Editores, em 1945. Essa crônica aparece no volume 6, intitulado “Sombras
que sofrem”.

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