sexta-feira, 27 de setembro de 2013

“A Eterna Imprudência”

No início do mês, houve uma revolta nas estações de trem da zona norte do Rio de Janeiro. Os passageiros atearam fogo em alguns vagões das composições da "Supervia". O assunto foi destaque nos telejornais durante alguns dias. Pouco depois, apareceu a notícia de um rapaz que perdera um braço após ser atropelado por um trem...

A situação dos transportes públicos no país foi o elemento determinante para a eclosão das "Jornadas de Junho". O que algumas pessoas não sabem é que o suplício dos trabalhadores nos trens e ônibus dos subúrbios perdura há muitas décadas.

Veja como o assunto foi tratado por Humberto de Campos, provavelmente no início da década de 1930, ao relatar a morte de um trabalhador que caiu de um trem.



“A Eterna Imprudência”

Humberto de Campos[i]

Quando o pai, Raimundo Preto, lhe morreu, caindo de um andaime do terceiro andar em que trabalhava como pedreiro, o Ezequiel não havia completado, ainda, oito anos. Raimundo Preto estivera dois dias com febre e constipação, em casa, quando teve medo de ser dispensado pelo patrão, e voltou ao trabalho. De repente sentiu uma tonteira, e procurou amparar-se. O braço encontrou apenas o vácuo, e ele se despenhou lá do alto, vindo bater com a espinha nas tábuas do andaime do segundo andar. Quando o corpo chegou ao solo, um filete de sangue lhe escorreu da boca, fazendo uma pequena poça no barro úmido espapaçado no chão. No dia seguinte, saía do necrotério, para ser sepultado como indigente.
Durante um mês, a Maria Rosa chorou o marido, à noite, em silêncio. De dia procurava emprego, inutilmente. Não tinha onde deixar o filho pequeno, e ninguém queria criada que se fizesse acompanhar de criança. No fim do mês, não pôde pagar o aluguel da casinha de taipa em que morava, nas proximidades da estação de Todos-os-Santos. Foi quando encontrou Honorato, graxeiro da Central do Brasil, que lhe propôs viverem juntos. E aceitou.
O Ezequiel era, então, um mulatinho miúdo e amarelo, de olhos redondos em que as pupilas escuras quase desapareciam no branco da esclerótica, e apresentando na miséria do físico todos os estigmas das crianças da classe operária que vivem nos subúrbios do Rio de Janeiro. Alimentado, durante anos seguidos, unicamente com feijão, farinha e arroz, que um pedaço de carne longinquamente temperava, o seu organismo desenvolvia-se sem vitaminas, num espetáculo de debilidade e fadiga que a sua vontade não conseguia vencer. Criou-se, entretanto, fez-se pedreiro, numa espécie de homenagem ao obscuro trabalhador que o pusera no mundo. Aos dezoito anos, quando conseguiu o primeiro salário de servente, a mãe deixou o sétimo ou oitavo companheiro de emergência, e ele passou a manter a casa. A velha morreu, porém. E como cada homem, na sua opinião, tinha o dever, na terra, de sustentar pelo menos uma mulher, o Ezequiel foi a procura de uma, e casou-se. E começou a lançar ao mundo filhos tão fracos, tristes e doentes como o pai.
O seu destino de operário em construções não era diverso daquele que tivera Raimundo Preto. Levantava-se às quatro horas da manhã e tomava, para a cidade, o trem das cinco ou das cinco e meia, conforme o bairro em que estivesse trabalhando, em Santa Teresa ou em Copacabana, em São Cristóvão ou no Leme. Quando vinha, trazia, porém, já, em uma pequena lata de manteiga ou de azeitona, o almoço magro, constituído, geralmente, pelo resto do arroz e do feijão do jantar, a que a mulher juntava um pedaço de carne assada na véspera. As botas que calçava, pesadas e grossas, estavam permanentemente encharcadas. E, quando chovia, e se molhava em caminho, era com essa roupa molhada que regressava à tarde, após haver passado o dia inteiro metido na roupa úmida, e empapada de barro, com que sobrepunha tijolos ou rebocava paredes, levantando bangalôs elegantes ou vastos arranha-céus de vinte andares. Mas, também, que alegria a sua, quando, terminada a obra, a via, graciosa ou gigantesca, entregue ao proprietário! Com que orgulho a mirava, contente, após a retirada dos andaimes, pelos quais se movera durante meses, pondo um pouco da sua alma na volúpia com que ligava o cimento ou no cuidado com que fixava o ladrilho! A colher com que alisava o barro possuía a sensibilidade humana dos seus dedos, e corria por ele lentamente, sensualmente, um corpo de mulher ardente e moça. Daí a afeição que o prendia às casas que havia ajudado a construir. Aos domingos, vinha para a cidade, e percorria diversos bairros, afim de contemplar cada uma, a ver como iam, e a sofrer quando as achava com a pintura descorada ou sem trato, com a mágoa de um pai que vai visitar a filha casada e a encontra enferma ou brutalizada pelo genro. Certa vez, encantado com um palacete em cuja construção trabalhara em Ipanema, consumira três domingos seguidos, a manha inteira a contemplá-lo, comovido, e feliz, como um noivo idoso que fita a noiva adolescente, ou como um pai que mira o primeiro filho. O morador do palacete estranhou a presença insistente daquele preto, e o modo por que olhava para a sua casa. Telefonou para a Polícia. E o Ezequiel passou todo o resto do domingo no xadrez da delegacia. Mesmo assim, não se emendou. No domino seguinte, descia, de novo, no Sampaio, da casinhola de taipa em que morava para fiscalizar, com ciúme paterno, os arranha-céus, os bangalôs e os palacetes alheios.
Trabalhando sempre na umidade e passando dias inteiros com a roupa molhada unida ao corpo, o Ezequiel estava, aos trinta anos, com as articulações enferrujadas pelo artritismo, e apunhalado de dores que lhe arrancavam gemidos surdos e heroicos, de touro no momento da ferra. Aos trinta e cinco, era com dificuldade que subia uma escada para trabalhar nos andaimes. Os remédios custavam, cada vidro, um dia de salário. E ele preferia um mês de sofrimento a ver, durante uma hora, um filho com fome. A dor que mais dói num pai é aquela que lhe chega através da carne dos filhos.
A maior tortura do Ezequiel era, entretanto, o regresso para casa, à tarde, no trem dos subúrbios, da Central do Brasil. Se aos homens sadios constituía uma luta a conquista de um lugar nos carros, a ele se tornava isso impossível. Empurrado, comprimido, atirado para frente contra a sua própria vontade, o mais que conseguia era, diariamente, um lugar na plataforma, espremido, de pé entre soldados alegres e fortes e outros operários magros e amarelos, mas brincalhões naquele tumulto de carnes suadas. Outros havia, porém, que não conseguiam nem isso. Alguns viajavam agarrados para fora dos carros, segurando-se nas ferragens com os pés e as mãos. Outros iam em cima, na cobertura dos vagões. Às vezes, no cruzamento de dois trens, o ar deslocado levava o chapéu de um ou de outro, que não podia segurá-lo por estar agarrado ao carro com uma das mãos, e com a outra ocupada pelas compras feitas ou pela pequena lata em que trouxera o almoço. Havia então, gargalhadas, pilhérias, assobios, que se multiplicavam pelos outros carros na celebração ruidosa do acontecimento insignificante.

— Tire a cabeça do caminho, senão vai também.

— Olha o teu miolo que ficou dentro do chapéu, desgraçado!

— Segura o pescoço, banana! Fiau!...

Não raro, em lugar do chapéu, ia o dono. O “rabecão” da Polícia vinha buscar o morto para o necrotério. E a viagem continuava. E a vida também.
Conhecendo a pequena resistência das suas pernas, o Ezequiel não ia, jamais, pendurado no carro, pelo lado de fora. Preferia esperar um ou dois trens, até conseguir um lugar menos perigoso, na plataforma. Naquele dia, porém, parecia que todos os operários dos subúrbios se haviam combinado para deixar o serviço à mesma hora. Os trens partiam repletos, e a estação Pedro II permanecia cheia de gente cansada e barulhenta, aguardando condução. Uma operária gorda, que há duas horas tentava tomar um carro, vira-se de tal modo comprimida pela multidão que tivera criança ali mesmo, socorrida pela Assistência Municipal. Com a roupa molhada no corpo, Ezequiel começou a sentir uns arrepios, como de febre. De repente, tonteou e teria caído, se o não amparassem. Anoitecia, e resolveu ir, de qualquer modo, no primeiro trem. Empregou para isso todos os esforços, empurrado os outros, comprimindo, fazendo o que os outros costumavam fazer. O mais, no entanto, que conseguiu foi a extremidade da plataforma de um carro de segunda classe, mas com um espaço tão reduzido que teve de apoiar o outro pé no carro seguinte. De súbito, a máquina uivou agudamente, e pôs-se em movimento. Ezequiel segurou-se com mais força e começou a pensar:

— A vida é, na verdade, muito cheia de injustiças. Estes homens todos que vão aqui, trabalham o dia inteiro para ganhar uma miséria. Almoçaram um pouco de feijão com um punhado de farinha. E para chegarem à casa, de regresso, têm que ir assim como eu vou. E ninguém se importa com isso... Eu ainda era menino, e já se falava em aumentar o número dos trens dos subúrbios à tarde e de manhã, na hora do pobre vir para o trabalho e voltar do trabalho. E no meu tempo é a mesma coisa que no tempo do meu pai...

O trem fizera uma curva, atirando-lhe para cima dos vizinhos. Ezequiel agarrou-se ainda mais nos dois ferros da plataforma. E continuou, consigo mesmo:

— Não é possível que pobre e rico sejam igualmente filhos de Deus. Uns são filhos, outros são enteados... Nenhum dos que vão aqui como pingente, viaja assim por gosto; mas todos vão rindo e brincando, para esquecer que são desgraçados.

Nesse momento, o trem fez uma curva. O carro deu um safanão violento, como um animal que desse um coice para libertar-se de alguém que lhe estivesse na garupa. Ezequiel tentou segurar-se. Mas foi tarde. Os dedos não se mostraram obedientes à sua vontade, e o seu corpo mergulhou entre os dois carros, desaparecendo imediatamente.
Vinte gritos partiram de vinte bocas. Aquilo era, porém, um espetáculo de quase todos os dias. O trem continuou, por isso, até à estação próxima, onde foram tomadas providências para a remoção dos despojos.
Nos dias seguintes os jornais noticiavam, em três ou quatro linhas, uma nova morte nos trens da Central. Uma das notícias, a mais extensa, estava assim redigida:


A viúva e os filhos de Ezequiel não tiveram conhecimento dessa notícia. Na tarde do outro dia, vieram ao necrotério, na cidade, para ver sair o corpo do seu marido e pai. E no necrotério mesmo se separaram, a viúva para procurar emprego, as crianças para pedir esmola.


***





[i] Das Obras Completas de Humberto de Campos, publicadas pela W. M. Jackson Inc. Editores, em 1945. Essa crônica aparece no volume 6, intitulado “Sombras que sofrem”.

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