domingo, 9 de fevereiro de 2014

Mais amplas reflexões em torno de Bidu

Bidu Sayão (1902-1999)

ALCANÇOU um pouco de barulhinho uma crônica de reflexões em torno de Bidu Sayão, que publiquei no Diário de Pernambuco.
Discursando no palco do Santa Isabel, em nome dos estudantes, para Bidu, Abelardo Jurema teve a bondade de citar o que eu escrevera, achando uma tristeza o que é a arte de hoje: um odioso privilégio de classe.
“Z”, cronista de “Cousas da Cidade”, no Diário de Pernambuco, deu um remédio para minhas aflições. Não é preciso, disse ele, a gente fazer uma revolução para todo mundo ter direito de ouvir uma artista como Bidu. Onde eu pedia uma revolução, ele pede um microfone. Um microfone, plantado no palco, para o povo lá fora ouvir Bidu.
É um fato. Mas isso resolveria, no máximo, um problema de acústica; deixaria no mesmo o problema social. O primeiro desses problemas é físico; o segundo é humano.
Mesmo para instalar o microfone no Santa Isabel já seria necessária uma espécie de revolução. . .  Mais exatamente, seriam necessários dinheiro e boa vontade, duas coisas que não se gastam facilmente em benefício do povo. Mesmo aí seria fazer uma tremenda injustiça a Bidu dizer que ouvi-la é tão bom como ouvi-la e vê-la. Por mais que se pretenda falar em arte pura é indiscutível que Bidu de carne, cantando, vale muito mais que Bidu, apenas manifestada através de fios de metal.
Mas será preciso explicar que não se trata só de Bidu, não se trata de uma artista? Trata-se da arte. Eu disse que a arte é, hoje, um odioso privilégio de classe. Ninguém pode dizer que não. Isso é odioso e triste e não dá prejuízo só à massa. Dá prejuízo igual à arte.
Como é que a arte, hoje em dia, penetra o povo, e como é que o povo penetra na arte?
A arte chega ao povo em forma de migalhas. A multidão conhece os grandes artistas por tabela. Nunca os viu, nunca os sentiu. O Recife tem agora umas 472.764 criaturas. Dessa gente mais da metade não chega a viver na pobreza: vive na miséria. Vive pior que os porcos. Isso porque os porcos vivem até bem na lama dos mocambos. A lama é a pátria deles. Eles engordam, são fortes e até belos porcamente belos. Tão fortes que já os vi varando os frágeis mocambos, como querendo expulsar os homens de sua pátria. Não sabem que aqueles homens já foram expulsos de sua terra; que eles estão ali, na lama, exilados por um regime desumano.
Mas aquelas 250 ou 260 mil criaturas humanas que arte existe para elas? Homens e mulheres que trabalham como cães, sujeitos, inermes, a todas as explorações e opressões, vivendo na ignorância, na fome, na doença que arte há para eles? Desde que nasceram, seus instintos de arte foram negados, massacrados pela vida foram pisados na lama. Presos à miséria econômica, eles, se tivessem tempo e dinheiro, não teriam mais gosto para as finas manifestações da arte.
Mas a gente pode sair, na calma, dos mocambos, trepar num bonde, entrar nas salinhas de visita da pequena burguesia. Essa gente remediada, esse povo das famílias modestas e das pensões baratas, tem direito à arte? Teve uma educação melhorzinha. Bastou para sentir a necessidade da arte. Mas não tem meios de satisfazer essa necessidade e, portanto, de educar essa necessidade. Daí esse artificialismo com que se comporta diante da arte. Artificialismo que invade e contamina a própria arte. Mesmo quando existe numa criatura da classe média uma vocação séria, imperiosa, para uma arte, essa vocação luta com tropeços enormes para se realizar e, o mais das vezes, não é aproveitada, e só raríssimamente é plenamente aproveitada. A pequena burguesia não é burra em si. Como explicar, então, a miséria dos quadrinhos da sala de jantar, as baboseiras do rádio ou do piano da sala de visitas, a infâmia dos biscuits, coloridos no quarto de casal, a idiotice azul dos romances e do álbum de poesias da moça, a mixórdia cretina dos livros do rapaz, o mau gosto terrível da própria casa? Será possível que esses milhares de famílias não sejam capazes de sentir de um modo mais fino a pintura, a música, a escultura, a poesia, a prosa, a arquitetura? O que há aí, de fato, é uma incapacidade... econômica. Essa incapacidade econômica força a incapacidade mental. E como essas famílias, apesar de tudo, têm uma certa influência econômica pelo seu número, formando o que se diz “o grande público”, a arte, por necessidades comerciais, tem de algum modo de se adaptar a elas, isto é, tem de descer a um nível inferior.
Agora o microfone. . . Sim, a técnica é uma bela coisa, mas não se pode esquecer que ela também, embora criada pelo povo, não está nas mãos do povo. Vêde uma questão de música: discos. É, na verdade, admirável, que a voz humana se conserve e se transmita assim. Mas olhemos a realidade. Quem faz os discos no Brasil? Existem algumas casas gravadoras, outras vendedoras. São empresas estrangeiras, que agem de comum acordo. Isso é tão bem feito que a Casa Edison ganhou 216 contos com o samba “Jura”, de Sinhô, e Sinhô morreu na miséria. Pode-se dizer que essas casas “incentivam” a música? Não. Elas apenas exploram a música brasileira, deixando na miséria nossos musicistas e obrigando-os, se quiserem ganhar um pouco mais de dinheiro, a produzir a torto e a direito, para aproveitar comercialmente o nome obtido com as produções boas. O imperialismo age aí, como age em todos os terrenos: “incentiva” explorando terrivelmente a matéria prima, escravizando os produtores, proibindo um verdadeiro progresso musical. Age de acordo com seus interesses próprios, comercialíssimos, e só “serve ao público” na medida em que isso é absolutamente necessário para amontoar dinheiro. É um cancro, e nada mais: um cancro já impossível de disfarçar.
Quando a música dos brasileiros for aproveitada pelos próprios brasileiros, sem essa nojenta organização comercial, incentivando os verdadeiros valores em benefício da arte e da massa ela não será outra coisa? Poderia citar aqui musicistas de grande valor que, por não se sujeitarem ao vergonhoso comércio da arte, têm de ganhar a vida em profissões estranhas, esfalfantes, sacrificando seu espírito, para não sacrificar seus princípios de respeito ao público. Para dar um só exemplo, e pernambucano, citarei Capiba, esse inestimável Capiba. Quantos eu poderia citar?
Qual é o artista que não sentiu com bastante crueldade a contingência de comercializar a arte para poder se manter nesse regime? Que prejuízo enorme isso não representa para o artista, para a massa, para a arte?
Só no seio da massa, quando a massa puder verdadeiramente viver a vida em toda plenitude, livre de seus exploradores, a arte pode tomar seus grandes rumos, seus grandes destinos. Só em um regime de justiça social pode haver, de fato, o intenso aproveitamento de valores dos valores puríssimos que o regime atual reduz, nega ou perverte.
Quero terminar esta lenga-lenga dando a palavra a um preto, a um preto do povo, anônimo, neste trecho final da reportagem da Folha do Povo, sobre o concerto da encantadora Bidu:
“Grande número de pessoas ouvia o rouxinol, através das janelas dos lados do teatro. Mandaram fechar. Aqueles ouvidos não eram dignos de ouvir Bidu Sayão. Alegaram que fecharam as janelas devido a corrente de ar. Um preto, que estava encantado com a voz maravilhosa, replicou: “Faz mal, não. Quando chegar a outra corrente, vocês não podem mais fechar. . . E a gente ouve, à vontade. . .”
Sim, todas as janelas e portas que separam o povo da arte serão arrebentadas. Entrará por elas o vento puro e livre da grande humanidade. Será o “caos” para os que exploram a arte, para os que exploram a vida.
Para a massa e para a arte será o grande minuto inicial da espantosa libertação.


Rubem Braga.
Recife, setembro, 1935.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Reflexões em torno de Bidu

Consegui há muitos anos um exemplar antigo do primeiro livro de crônicas do Rubem Braga: "O Conde e o Passarinho". É o exemplar 4.932 de uma versão publicada em 1961 pela "Editora do Autor", em capa dura, contendo ainda as crônicas reunidas em "O Morro do Isolamento" e um soneto que o Velho Braga acrescentou neste volume "para que ficasse junta toda a minha obra poética".

Nas edições mais recentes desse livro, não sei se por obra da censura ou se devido ao próprio autor, duas crônicas são sempre suprimidas: as "Reflexões em torno de Bidu" e as "Mais amplas reflexões em torno de Bidu". Publico aqui a primeira, em breve postarei a segunda. Creio que é a primeira vez que aparecem na internet...

Nessas crônicas estão contidas as concepções do Velho Braga sobre Arte e Revolução.

Teatro de Santa Isabel



Reflexões em torno de Bidu

EXTRAORDINARIAMENTE feio, o Teatro de Santa Isabel!
 Alguns “smokings” aparecem entre as roupas comuns, de casemira e de brim. Há senhoras de vestido de baile e senhoras de chapéu. Há senhoritas de boina. As senhoritas de boina se empoleiram pelas torrinhas. São leves, portáteis, lindas, como passarinhos. Uma loura com um chapéu verde, a morena com uma boina marrom sobre cabelos castanhos; e elas se dão adeusinhos de longe, vibrando os dedos finos no ar, como se tocassem piano no espaço.
Entra Bidu, Bidu! Vem com um vestido excelente no corpo excelente; flores de cores misturadas feito uma cortina. A cortina é colante no corpo de Bidu. Aplico a Bidu um adjetivo que aprendi na minha terra. Adjetivo que serve para mulheres que não são lindíssimas, mas que exprime uma simpatia poderosa da carne e da alma. Bidu é simplástica. Essa palavra singular foi um negro que me ensinou.
Ela canta. Não entendo nada de canto, e com certeza vou dizer bobagem. Mas o que me emociona demais nos cantos de Bidu é sua voz sempre humana. Mesmo quando é um agudo, quando o som se desumaniza para ser um som puro, Bidu não perde seu grande acento humano. É sempre uma voz de mulher, uma voz saída de uma garganta de carne. Tenho ouvido grandes cantoras que me desgostam. Parece que a voz delas em certo ponto perde a graça natural; a mulher desaparece, fica só a voz, sem sexo nem humanidade, como se houvesse no palco um instrumento magnífico.
Bidu é incondicionalmente mulher, sua voz é sempre a voz da fêmea.
Perdoe, Bidu. Podeis entender em sentido figurado, perdoai se isso não vos agrada; sois sempre mulher... mulata. Há uma ternura nas vozes das mulatas que não encontro nas outras. Essa ternura, essa voz de mestiçagem, esse gosto de voz de mulata eu sinto nos cantos de Bidu. Haveria outro modo de dizer isso. Diria que ela é intensamente brasileira. Um dengue poderoso, uma graça de terra que se ama porque se ama desde os primeiros amores. Aquele troço tristíssimo de Mozart que ela enxertou na primeira parte: havia ali uma tristeza de tal jeito que só acho comparação na tristeza da voz de lavadeira cantando na beira do rio, longe, de tarde, uma lavadeira bem pobre, desinfeliz.
Vide e ouvi como Bidu faz feminino o tom marcial da Marcha Turca. É um milagre de feminilidade. Aqueles clarins que avançam e passam são clarins tocados em bocas rubras de mulheres moças.
A Ária da Loucura foi uma coisa enorme. Aconteceu que o flautista era um velhinho de óculos. O velhinho começou sem acertar com o piano, um pouco alto de mais. O pianista Ernani Braga (que não é meu tio) olhou para ele. O velhinho apitou outra vez na flauta e encabulou irresistivelmente. A flauta fazia greve e tremia nas suas mãos. E quando ele queria soprar uma nota, a flauta soprava outra. O velhinho, soprando com medo de soprar, tremia demais; e então Bidu pôs olhos lindos ferozes nele! Pra quê! O velhinho olhou Bidu e não teve coragem de olhar o povo, quase que engulia a flauta, disse que estava mui-muito emocio...nado e não po-podia tocar não podia não podia. Na plateia houve murmúrios e emoções. Que pena sentimos do velhinho! Vai ver, pensei, que isso era o grande minuto da vida dele. Ele esperou cinquenta anos para tocar flauta nos cantos de Bidu, era sua glória número um. E na hora da glória encabulou, num fracasso completo. Que pena! O velhinho se foi, martirizado. Depois soube que ele até que é um velhinho especial na flauta, se chama Billoro, e veio do Rio de avião só para tocar naquele minutinho ali. Mas que desgraça! Todo mundo atrapalhado, uns sentindo raiva, outros com pena, outros quase chorando, outros querendo rebentar na gargalhada. Uma grande desgraça do gênero humano.
Ernani Braga ficou meio atrapalhado, teve de tocar flauta no piano.
Gounod abriu a terceira parte. Depois veio “L’eclat de rire”. Risadas matinalíssimas de uma frescura de delícia, teve de repetir. Ninguém mais cantará aquilo melhor que Bidu. Depois a graça de “El Piropo” e “Mi Niña”, esta quase melosa de tão doce.
A Serenata de Alberto Costa não me agrada. No fim a “Canção da Felicidade”, aquilo que já se sabe, a infalível tempestade de aplausos. Bidu fez gentileza extrema de cantar mais três vezes, acabou com a Rosamonde e saiu do palco com aquele seu jeito altamente gostoso e bonito de andar, de sorrir, de se curvar agradecendo, qualquer coisa de uma Arací Côrtes, que fosse finíssima.
Foi uma noite de delícias fartíssimas. É horrivelmente vergonhoso pensar que dos 450 mil habitantes do Recife só um punhadinho possa gozar tanta riqueza de sentimento, tanta vibração de beleza. Àquela hora, meia noite, a imensa população trabalhadora dormia extenuada para acordar hoje cedo e trabalhar faminta... Mesmo se não houvesse tantas misérias tão graves, tão angustiosas, tão básicas, bastaria esse fato em demais triste de nem todo mundo ter direito de ouvir uma artista como Bidu para justificar uma revolução. Que não será a arte quando ela não for mais um odioso privilégio de classe? Que riqueza musical espantosa não se estraga para sempre no seio da massa, e como é absolutamente necessário que todo mundo ouça artistas como Bidu! No Teatro de Santa Isabel há uma placa de bronze com uma frase de Nabuco: “aqui vencemos a abolição”. Mas não vi nenhum negro no recital. Os negros e os brancos pobres – o enorme povo – não entra ali. Para ele estão fechadas as portas de todos os altos bens da vida humana. Velho Nabuco, há muitas abolições a fazer ainda.

Rubem Braga.
Recife, setembro, 1935.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Não faça isso!


Cena do filme


Ontem cometi um grave erro. Mal tinha acabado de ler “As Virgens Suicidas”, o romance que projetou o novato Jeffrey Eugenides (vencedor do Pulitzer em 2003 com “Middlesex”), e resolvi checar o filme.
Antes de fazer essa besteira, pensei comigo mesmo que se o filme fosse ruim, iria estragar o estado de espírito que eu acabara de atingir ao concluir a leitura. A propósito, no momento em que fechei o livro, me escapou uma expressão que aparece em dada altura da narrativa: “Puta merda!” De fato, o livro é meio desconcertante. Todos nós já lemos algo ou já ouvimos algo a respeito do suicídio, e eu imaginei que encontraria neste livro algumas explicações triviais, baseadas em fragmentos de interpretação sociológica. Felizmente me enganei. Não há nada no livro que se pareça com “ideologização”, o que é uma grande coisa, porque a arte não precisa estar comprometida com a sociologia ou com qualquer outra ciência. Se ela quiser se enriquecer com a ciência, ótimo. Mas não há e não deve haver, em princípio, na criação literária, qualquer obrigação com a realidade.
Cinema e literatura são formas de arte diferentes, e as comparações são sempre mais ou menos injustas. Mas é certo que existem transposições muito bem sucedidas de obras literárias para o cinema, como “Apocalypse Now”, que adapta e enriquece o clássico “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, ou “O Poderoso Chefão”, adaptação do livro de Mario Puzo, ambos dirigidos por Francis Ford Copolla. Foi isso o que me veio à mente ao observar que Sofia Copolla estava à frente de “As Virgens Suicidas”...
Infelizmente, a tecnologia disponível hoje nos facilita a prática de atos insanos. É muito fácil e rápido “baixar” um filme, e você não precisa de nada além de uma ou duas horas livres para vê-lo...
Consultando algumas páginas na Internet, fiquei surpreso ao verificar que o filme foi elogiado, pois embora esteja um pouco acima da média, não capta absolutamente nada da profundidade que existe na obra original. No filme, os suicídios são completamente inexplicáveis. As meninas Lisbon raramente parecem pertencer a uma família de protestantes ortodoxos. O lar em que vivem não parece opressivo, e exceto por alguns crucifixos aqui e ali, e pelos atos repressivos da mãe, não temos qualquer ideia sobre seu isolamento do mundo. Outro detalhe: elas aparecem o tempo todo maquiadas, não figuram como seres mais ou menos estranhos, como ocorre com as meninas cujos pais são aferrados a certas concepções religiosas (no Brasil, temos o caso das famílias evangélicas, em que as meninas são obrigadas a usar aquelas saias enormes e feias e cabelos longos e descuidados, ou o caso das adventistas, que são proibidas de usar maquiagem ou brincos). Nada disso transparece satisfatoriamente na tela.
Alguns episódios da trama estão bem retratados. Mas este êxito parcial não é suficiente para cobrir as falhas, que são muitas. Exemplo: onde foram parar as efeméridas? Que poderosa metáfora de uma vida fugaz e sem sentido, como a das meninas, e que ficou totalmente ausente na versão para o cinema... E o inverno? A neve que as manteve presas em casa por três meses, agravando a reclusão e o luto causados pela morte de Cecília? A passagem do tempo também ficou muito mal retratada. Não vemos o apodrecimento e a morte da casa. As personagens parecem não sofrer nada com a morte de Cecília. Em suma, a morte e suas muitas manifestações, que avançam gradualmente até arrastar toda a família em seu turbilhão, esteve quase completamente ausente no filme.
E, finalmente, a injustiça cometida com Lux Lisbon. Ela não era uma adolescente mais ou menos sexy e “depravada”, como foi encenada. Lux estava lutando para viver, e sua fase de loucura, em que começa a receber rapazes no telhado de casa, era uma forma de fuga, a fuga impossível, que ela só encontrará em sua derradeira viagem. Todo o seu comportamento era uma reação desesperada contra a aproximação da morte, e não apenas o exercício simples e fútil de uma sexualidade recém-descoberta e até então contida.
Enfim, se você quer ler um bom livro, leia essa pequena obra-prima. Se não quiser que a profunda reflexão sobre a vida e a morte, o sentido de nossa efêmera existência, seja prejudicada por uma interpretação fraca e empobrecedora, não veja o filme. Apesar do modo como foram retratadas no cinema (Lux, em particular), continuaremos amando as meninas Lisbon, escondidos em nossa casa na árvore, remexendo para sempre o dossiê das lembranças, mesmo depois de velhos! (Aliás, a ausência da casa na árvore é também frustrante!)

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sábado, 28 de setembro de 2013

A Lira contra o Muro

O lirismo, a literatura, a luta pela libertação das mulheres. Um pequeno manifesto em defesa de uma arte revolucionária.



Protesto em Bangladesh após a tragédia que consumiu
 mais de mil vidas de operárias têxteis

Rubem Braga [1]
São Paulo, 1937

Meu poeta, pois então vamos falar sobre mulheres. Garanto que é um belo assunto. De um certo modo reconheço que isso é um pouco humilhante, quando se é moço. Basta pensar isto: enquanto estou escrevendo, lá fora, na rua, passam mulheres. Minha obrigação era descer as escadas e ir vê-las. É um verdadeiro crime um homem ficar dentro de uma sala escrevendo, sob a luz artificial, quando lá fora a tarde ainda está clara e há mulheres andando. É aflitivo pensar que a vida está correndo e nós estamos aqui conversando. Confesso que às vezes acho qualquer coisa de humilhante na literatura... Mas o certo é que vivemos em um mundo assim. É espantoso como este mundo em que vivemos não presta. Dizem que não adianta bater com a cabeça contra o muro. Bato frequentemente. É possível que qualquer dia a minha cabeça arrebente. Mas lá fora, do outro lado, deve chegar um som qualquer de minha cabeça.

Lá fora... Certamente nem eu nem você saberíamos viver lá fora. Seria como se nos tirassem da cabeça o peso da atmosfera ou como se, de repente, acabasse a força da gravidade. Morreríamos afogados no ar. Conheci, há pouco tempo, um homem que passou vinte e cinco anos na cadeia. Mas não quero falar daquele homem. Sinto que se o muro caísse, eu seria como aquele homem. Cuspiria no chão a horas certas, para ter a gloriosa certeza de que não é proibido cuspir no chão. Bem, mas é preciso não esquecer de que lá fora não existe. Isso é um segredo tão terrível que você pode contar a todo mundo. Ninguém acreditará. Todos os homens farão um sinal com a cabeça: “Sim, já sabíamos há muito tempo”. Mas no fundo do coração ninguém acreditará.

Na verdade, estamos todos presos, e precisamos ter uma aguda consciência disso. Você, poeta, não tem consciência de classe. Tem coragem de dizer que ama tudo o que é lindo e humano, a beleza em geral, as mulheres, os sentimentos delicados, a poesia, essas coisas — e detesta a política. Você sabe, poeta, que há mulheres que são como flores empoeiradas? Se você encontrasse uma pequena flor coberta de poeira, jogaria gotas de água sobre aquela flor. As pétalas poderiam, então, sentir a carícia fresca do vento — suponhamos — da brisa terral. Seriam assim umas onze horas da noite. A brisa terral vindo lá de dentro, do meio do grande país, indo para o mar lá longe, o mar aberto, o grande mar. E a brisa terral beijaria aquela flor, e aquela flor seria mais linda. Você ficaria comovido e se sentiria bom. Pois, meu poeta, ali estão as mulheres empoeiradas. Há mãos de lírios limpando panelas engorduradas. Mãos que poderiam ser de lírios e estão grossas e vermelhas. Há moças em massa, há moças em massa ficando feias, metodicamente feias, ficando feias. Há mulheres em massa, belas mulheres murchando, murchando, murchando depressa. Há mocinhas, surpreendentes mocinhas que ficarão doentes antes de florescer. Há crianças que jamais serão mocinhas. Morrem muitas crianças, e na maioria não morrem de propósito para virar anjinho; morrem devido a moléstias intestinais.

Mas estamos falando de mulheres. É extraordinário notar que elas não são simplesmente mulheres, e não existem apenas quando passam por nós ou são beijadas, ou suspiram. É extraordinário saber que elas vivem. Em grande número são subalimentadas, e precisam de educação e higiene, duas coisas caríssimas. Naquela noite aquela pequena não foi se encontrar com você porque a meia esquerda desfiou e o outro par estava molhado. Aquela outra não sorriu para você porque só pode pagar a um péssimo dentista. Aquela outra está com a pele ruim porque alguma coisa dentro dela não está funcionando direito, e ela não pode procurar um especialista. Não pense que a filha daquele funcionário dos correios ficou tuberculosa para imitar a Greta Garbo da Dama das Camélias. Acontece que um litro de leite custa mil e duzentos. Não sei de quem é a culpa, mas seguramente não é das vacas, nem de Margueritte Gauthier. Muitas mulheres amariam os seus versos se elas soubessem ler, ou se não soubessem apenas ler.

Não, poeta, eu não levarei o meu mau-gosto a ponto de falar das operárias — dessas estranhas mulheres que não têm o direito se ser bonitas nem saudáveis — ou das mulheres da roça, que vivem para trabalhar e parir. Não quero magoar você, poeta. Apenas quero que você pense nesse formidável capital de beleza e, portanto, de lirismo, que este mundo que aí está massacra sistematicamente.

As flores empoeiradas... Há flores cobertas de poeira, flores que murcham sufocadas pela poeira. Que as mulheres trabalhem. Mas que elas vivam, possam respirar bem, florescer em beleza, crescer debaixo do sol, amar sem doenças e dar à luz filhos fortes e livres. Que a vida, poeta, a grande vida cheia de sentimentos e de mistérios dos humanos, possa ser vivida um pouco por todos. Você vai me chamar de materialista e reclamar o “primado do espiritual”: mas eu quero que nos lugares onde faz frio haja um chuveiro quente em cada casa para que as mulheres que não podem tomar banho frio possam tomar banho todo dia, com facilidade. Elas não perderão a poesia: perderão apenas a poeira. Perante este povo imenso de tantas mulheres sujas eu pergunto: por que não há mais chuveiros quentes? Ou simplesmente: chuveiros? Temos enormes quedas d’água para despejar eletricidade sobre o país; eletricidade e água, água, muita água... Mas, poeta, não quero convidar você a lutar contra o imperialismo e contra toda a exploração. No fundo este nosso povo pobre é tão espiritual. Sofrer é belo, enobrece as almas. Mas as flores estão cobertas de poeira. Elas estão murchando. Já nascem murchas. Você acha que uma vida mais limpa e mais livre poderia matar a poesia? Não, poeta, você sabe que o lirismo não é o lixo da vida, e que a poesia não morre, que a poesia é eterna e infinita no peito humano. Meu poeta, você está convidado a bater com a cabeça no muro. Pode bater com a lira também. Se ela quebrar, não faz mal. Soltará um belo som, e esse som será uma profunda poesia.

***



[1] Do segundo livro de crônicas do autor, publicado em 1944, "O Morro do Isolamento".