segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Não faça isso!


Cena do filme


Ontem cometi um grave erro. Mal tinha acabado de ler “As Virgens Suicidas”, o romance que projetou o novato Jeffrey Eugenides (vencedor do Pulitzer em 2003 com “Middlesex”), e resolvi checar o filme.
Antes de fazer essa besteira, pensei comigo mesmo que se o filme fosse ruim, iria estragar o estado de espírito que eu acabara de atingir ao concluir a leitura. A propósito, no momento em que fechei o livro, me escapou uma expressão que aparece em dada altura da narrativa: “Puta merda!” De fato, o livro é meio desconcertante. Todos nós já lemos algo ou já ouvimos algo a respeito do suicídio, e eu imaginei que encontraria neste livro algumas explicações triviais, baseadas em fragmentos de interpretação sociológica. Felizmente me enganei. Não há nada no livro que se pareça com “ideologização”, o que é uma grande coisa, porque a arte não precisa estar comprometida com a sociologia ou com qualquer outra ciência. Se ela quiser se enriquecer com a ciência, ótimo. Mas não há e não deve haver, em princípio, na criação literária, qualquer obrigação com a realidade.
Cinema e literatura são formas de arte diferentes, e as comparações são sempre mais ou menos injustas. Mas é certo que existem transposições muito bem sucedidas de obras literárias para o cinema, como “Apocalypse Now”, que adapta e enriquece o clássico “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, ou “O Poderoso Chefão”, adaptação do livro de Mario Puzo, ambos dirigidos por Francis Ford Copolla. Foi isso o que me veio à mente ao observar que Sofia Copolla estava à frente de “As Virgens Suicidas”...
Infelizmente, a tecnologia disponível hoje nos facilita a prática de atos insanos. É muito fácil e rápido “baixar” um filme, e você não precisa de nada além de uma ou duas horas livres para vê-lo...
Consultando algumas páginas na Internet, fiquei surpreso ao verificar que o filme foi elogiado, pois embora esteja um pouco acima da média, não capta absolutamente nada da profundidade que existe na obra original. No filme, os suicídios são completamente inexplicáveis. As meninas Lisbon raramente parecem pertencer a uma família de protestantes ortodoxos. O lar em que vivem não parece opressivo, e exceto por alguns crucifixos aqui e ali, e pelos atos repressivos da mãe, não temos qualquer ideia sobre seu isolamento do mundo. Outro detalhe: elas aparecem o tempo todo maquiadas, não figuram como seres mais ou menos estranhos, como ocorre com as meninas cujos pais são aferrados a certas concepções religiosas (no Brasil, temos o caso das famílias evangélicas, em que as meninas são obrigadas a usar aquelas saias enormes e feias e cabelos longos e descuidados, ou o caso das adventistas, que são proibidas de usar maquiagem ou brincos). Nada disso transparece satisfatoriamente na tela.
Alguns episódios da trama estão bem retratados. Mas este êxito parcial não é suficiente para cobrir as falhas, que são muitas. Exemplo: onde foram parar as efeméridas? Que poderosa metáfora de uma vida fugaz e sem sentido, como a das meninas, e que ficou totalmente ausente na versão para o cinema... E o inverno? A neve que as manteve presas em casa por três meses, agravando a reclusão e o luto causados pela morte de Cecília? A passagem do tempo também ficou muito mal retratada. Não vemos o apodrecimento e a morte da casa. As personagens parecem não sofrer nada com a morte de Cecília. Em suma, a morte e suas muitas manifestações, que avançam gradualmente até arrastar toda a família em seu turbilhão, esteve quase completamente ausente no filme.
E, finalmente, a injustiça cometida com Lux Lisbon. Ela não era uma adolescente mais ou menos sexy e “depravada”, como foi encenada. Lux estava lutando para viver, e sua fase de loucura, em que começa a receber rapazes no telhado de casa, era uma forma de fuga, a fuga impossível, que ela só encontrará em sua derradeira viagem. Todo o seu comportamento era uma reação desesperada contra a aproximação da morte, e não apenas o exercício simples e fútil de uma sexualidade recém-descoberta e até então contida.
Enfim, se você quer ler um bom livro, leia essa pequena obra-prima. Se não quiser que a profunda reflexão sobre a vida e a morte, o sentido de nossa efêmera existência, seja prejudicada por uma interpretação fraca e empobrecedora, não veja o filme. Apesar do modo como foram retratadas no cinema (Lux, em particular), continuaremos amando as meninas Lisbon, escondidos em nossa casa na árvore, remexendo para sempre o dossiê das lembranças, mesmo depois de velhos! (Aliás, a ausência da casa na árvore é também frustrante!)

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sábado, 28 de setembro de 2013

A Lira contra o Muro

O lirismo, a literatura, a luta pela libertação das mulheres. Um pequeno manifesto em defesa de uma arte revolucionária.



Protesto em Bangladesh após a tragédia que consumiu
 mais de mil vidas de operárias têxteis

Rubem Braga [1]
São Paulo, 1937

Meu poeta, pois então vamos falar sobre mulheres. Garanto que é um belo assunto. De um certo modo reconheço que isso é um pouco humilhante, quando se é moço. Basta pensar isto: enquanto estou escrevendo, lá fora, na rua, passam mulheres. Minha obrigação era descer as escadas e ir vê-las. É um verdadeiro crime um homem ficar dentro de uma sala escrevendo, sob a luz artificial, quando lá fora a tarde ainda está clara e há mulheres andando. É aflitivo pensar que a vida está correndo e nós estamos aqui conversando. Confesso que às vezes acho qualquer coisa de humilhante na literatura... Mas o certo é que vivemos em um mundo assim. É espantoso como este mundo em que vivemos não presta. Dizem que não adianta bater com a cabeça contra o muro. Bato frequentemente. É possível que qualquer dia a minha cabeça arrebente. Mas lá fora, do outro lado, deve chegar um som qualquer de minha cabeça.

Lá fora... Certamente nem eu nem você saberíamos viver lá fora. Seria como se nos tirassem da cabeça o peso da atmosfera ou como se, de repente, acabasse a força da gravidade. Morreríamos afogados no ar. Conheci, há pouco tempo, um homem que passou vinte e cinco anos na cadeia. Mas não quero falar daquele homem. Sinto que se o muro caísse, eu seria como aquele homem. Cuspiria no chão a horas certas, para ter a gloriosa certeza de que não é proibido cuspir no chão. Bem, mas é preciso não esquecer de que lá fora não existe. Isso é um segredo tão terrível que você pode contar a todo mundo. Ninguém acreditará. Todos os homens farão um sinal com a cabeça: “Sim, já sabíamos há muito tempo”. Mas no fundo do coração ninguém acreditará.

Na verdade, estamos todos presos, e precisamos ter uma aguda consciência disso. Você, poeta, não tem consciência de classe. Tem coragem de dizer que ama tudo o que é lindo e humano, a beleza em geral, as mulheres, os sentimentos delicados, a poesia, essas coisas — e detesta a política. Você sabe, poeta, que há mulheres que são como flores empoeiradas? Se você encontrasse uma pequena flor coberta de poeira, jogaria gotas de água sobre aquela flor. As pétalas poderiam, então, sentir a carícia fresca do vento — suponhamos — da brisa terral. Seriam assim umas onze horas da noite. A brisa terral vindo lá de dentro, do meio do grande país, indo para o mar lá longe, o mar aberto, o grande mar. E a brisa terral beijaria aquela flor, e aquela flor seria mais linda. Você ficaria comovido e se sentiria bom. Pois, meu poeta, ali estão as mulheres empoeiradas. Há mãos de lírios limpando panelas engorduradas. Mãos que poderiam ser de lírios e estão grossas e vermelhas. Há moças em massa, há moças em massa ficando feias, metodicamente feias, ficando feias. Há mulheres em massa, belas mulheres murchando, murchando, murchando depressa. Há mocinhas, surpreendentes mocinhas que ficarão doentes antes de florescer. Há crianças que jamais serão mocinhas. Morrem muitas crianças, e na maioria não morrem de propósito para virar anjinho; morrem devido a moléstias intestinais.

Mas estamos falando de mulheres. É extraordinário notar que elas não são simplesmente mulheres, e não existem apenas quando passam por nós ou são beijadas, ou suspiram. É extraordinário saber que elas vivem. Em grande número são subalimentadas, e precisam de educação e higiene, duas coisas caríssimas. Naquela noite aquela pequena não foi se encontrar com você porque a meia esquerda desfiou e o outro par estava molhado. Aquela outra não sorriu para você porque só pode pagar a um péssimo dentista. Aquela outra está com a pele ruim porque alguma coisa dentro dela não está funcionando direito, e ela não pode procurar um especialista. Não pense que a filha daquele funcionário dos correios ficou tuberculosa para imitar a Greta Garbo da Dama das Camélias. Acontece que um litro de leite custa mil e duzentos. Não sei de quem é a culpa, mas seguramente não é das vacas, nem de Margueritte Gauthier. Muitas mulheres amariam os seus versos se elas soubessem ler, ou se não soubessem apenas ler.

Não, poeta, eu não levarei o meu mau-gosto a ponto de falar das operárias — dessas estranhas mulheres que não têm o direito se ser bonitas nem saudáveis — ou das mulheres da roça, que vivem para trabalhar e parir. Não quero magoar você, poeta. Apenas quero que você pense nesse formidável capital de beleza e, portanto, de lirismo, que este mundo que aí está massacra sistematicamente.

As flores empoeiradas... Há flores cobertas de poeira, flores que murcham sufocadas pela poeira. Que as mulheres trabalhem. Mas que elas vivam, possam respirar bem, florescer em beleza, crescer debaixo do sol, amar sem doenças e dar à luz filhos fortes e livres. Que a vida, poeta, a grande vida cheia de sentimentos e de mistérios dos humanos, possa ser vivida um pouco por todos. Você vai me chamar de materialista e reclamar o “primado do espiritual”: mas eu quero que nos lugares onde faz frio haja um chuveiro quente em cada casa para que as mulheres que não podem tomar banho frio possam tomar banho todo dia, com facilidade. Elas não perderão a poesia: perderão apenas a poeira. Perante este povo imenso de tantas mulheres sujas eu pergunto: por que não há mais chuveiros quentes? Ou simplesmente: chuveiros? Temos enormes quedas d’água para despejar eletricidade sobre o país; eletricidade e água, água, muita água... Mas, poeta, não quero convidar você a lutar contra o imperialismo e contra toda a exploração. No fundo este nosso povo pobre é tão espiritual. Sofrer é belo, enobrece as almas. Mas as flores estão cobertas de poeira. Elas estão murchando. Já nascem murchas. Você acha que uma vida mais limpa e mais livre poderia matar a poesia? Não, poeta, você sabe que o lirismo não é o lixo da vida, e que a poesia não morre, que a poesia é eterna e infinita no peito humano. Meu poeta, você está convidado a bater com a cabeça no muro. Pode bater com a lira também. Se ela quebrar, não faz mal. Soltará um belo som, e esse som será uma profunda poesia.

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[1] Do segundo livro de crônicas do autor, publicado em 1944, "O Morro do Isolamento".

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

“A Eterna Imprudência”

No início do mês, houve uma revolta nas estações de trem da zona norte do Rio de Janeiro. Os passageiros atearam fogo em alguns vagões das composições da "Supervia". O assunto foi destaque nos telejornais durante alguns dias. Pouco depois, apareceu a notícia de um rapaz que perdera um braço após ser atropelado por um trem...

A situação dos transportes públicos no país foi o elemento determinante para a eclosão das "Jornadas de Junho". O que algumas pessoas não sabem é que o suplício dos trabalhadores nos trens e ônibus dos subúrbios perdura há muitas décadas.

Veja como o assunto foi tratado por Humberto de Campos, provavelmente no início da década de 1930, ao relatar a morte de um trabalhador que caiu de um trem.



“A Eterna Imprudência”

Humberto de Campos[i]

Quando o pai, Raimundo Preto, lhe morreu, caindo de um andaime do terceiro andar em que trabalhava como pedreiro, o Ezequiel não havia completado, ainda, oito anos. Raimundo Preto estivera dois dias com febre e constipação, em casa, quando teve medo de ser dispensado pelo patrão, e voltou ao trabalho. De repente sentiu uma tonteira, e procurou amparar-se. O braço encontrou apenas o vácuo, e ele se despenhou lá do alto, vindo bater com a espinha nas tábuas do andaime do segundo andar. Quando o corpo chegou ao solo, um filete de sangue lhe escorreu da boca, fazendo uma pequena poça no barro úmido espapaçado no chão. No dia seguinte, saía do necrotério, para ser sepultado como indigente.
Durante um mês, a Maria Rosa chorou o marido, à noite, em silêncio. De dia procurava emprego, inutilmente. Não tinha onde deixar o filho pequeno, e ninguém queria criada que se fizesse acompanhar de criança. No fim do mês, não pôde pagar o aluguel da casinha de taipa em que morava, nas proximidades da estação de Todos-os-Santos. Foi quando encontrou Honorato, graxeiro da Central do Brasil, que lhe propôs viverem juntos. E aceitou.
O Ezequiel era, então, um mulatinho miúdo e amarelo, de olhos redondos em que as pupilas escuras quase desapareciam no branco da esclerótica, e apresentando na miséria do físico todos os estigmas das crianças da classe operária que vivem nos subúrbios do Rio de Janeiro. Alimentado, durante anos seguidos, unicamente com feijão, farinha e arroz, que um pedaço de carne longinquamente temperava, o seu organismo desenvolvia-se sem vitaminas, num espetáculo de debilidade e fadiga que a sua vontade não conseguia vencer. Criou-se, entretanto, fez-se pedreiro, numa espécie de homenagem ao obscuro trabalhador que o pusera no mundo. Aos dezoito anos, quando conseguiu o primeiro salário de servente, a mãe deixou o sétimo ou oitavo companheiro de emergência, e ele passou a manter a casa. A velha morreu, porém. E como cada homem, na sua opinião, tinha o dever, na terra, de sustentar pelo menos uma mulher, o Ezequiel foi a procura de uma, e casou-se. E começou a lançar ao mundo filhos tão fracos, tristes e doentes como o pai.
O seu destino de operário em construções não era diverso daquele que tivera Raimundo Preto. Levantava-se às quatro horas da manhã e tomava, para a cidade, o trem das cinco ou das cinco e meia, conforme o bairro em que estivesse trabalhando, em Santa Teresa ou em Copacabana, em São Cristóvão ou no Leme. Quando vinha, trazia, porém, já, em uma pequena lata de manteiga ou de azeitona, o almoço magro, constituído, geralmente, pelo resto do arroz e do feijão do jantar, a que a mulher juntava um pedaço de carne assada na véspera. As botas que calçava, pesadas e grossas, estavam permanentemente encharcadas. E, quando chovia, e se molhava em caminho, era com essa roupa molhada que regressava à tarde, após haver passado o dia inteiro metido na roupa úmida, e empapada de barro, com que sobrepunha tijolos ou rebocava paredes, levantando bangalôs elegantes ou vastos arranha-céus de vinte andares. Mas, também, que alegria a sua, quando, terminada a obra, a via, graciosa ou gigantesca, entregue ao proprietário! Com que orgulho a mirava, contente, após a retirada dos andaimes, pelos quais se movera durante meses, pondo um pouco da sua alma na volúpia com que ligava o cimento ou no cuidado com que fixava o ladrilho! A colher com que alisava o barro possuía a sensibilidade humana dos seus dedos, e corria por ele lentamente, sensualmente, um corpo de mulher ardente e moça. Daí a afeição que o prendia às casas que havia ajudado a construir. Aos domingos, vinha para a cidade, e percorria diversos bairros, afim de contemplar cada uma, a ver como iam, e a sofrer quando as achava com a pintura descorada ou sem trato, com a mágoa de um pai que vai visitar a filha casada e a encontra enferma ou brutalizada pelo genro. Certa vez, encantado com um palacete em cuja construção trabalhara em Ipanema, consumira três domingos seguidos, a manha inteira a contemplá-lo, comovido, e feliz, como um noivo idoso que fita a noiva adolescente, ou como um pai que mira o primeiro filho. O morador do palacete estranhou a presença insistente daquele preto, e o modo por que olhava para a sua casa. Telefonou para a Polícia. E o Ezequiel passou todo o resto do domingo no xadrez da delegacia. Mesmo assim, não se emendou. No domino seguinte, descia, de novo, no Sampaio, da casinhola de taipa em que morava para fiscalizar, com ciúme paterno, os arranha-céus, os bangalôs e os palacetes alheios.
Trabalhando sempre na umidade e passando dias inteiros com a roupa molhada unida ao corpo, o Ezequiel estava, aos trinta anos, com as articulações enferrujadas pelo artritismo, e apunhalado de dores que lhe arrancavam gemidos surdos e heroicos, de touro no momento da ferra. Aos trinta e cinco, era com dificuldade que subia uma escada para trabalhar nos andaimes. Os remédios custavam, cada vidro, um dia de salário. E ele preferia um mês de sofrimento a ver, durante uma hora, um filho com fome. A dor que mais dói num pai é aquela que lhe chega através da carne dos filhos.
A maior tortura do Ezequiel era, entretanto, o regresso para casa, à tarde, no trem dos subúrbios, da Central do Brasil. Se aos homens sadios constituía uma luta a conquista de um lugar nos carros, a ele se tornava isso impossível. Empurrado, comprimido, atirado para frente contra a sua própria vontade, o mais que conseguia era, diariamente, um lugar na plataforma, espremido, de pé entre soldados alegres e fortes e outros operários magros e amarelos, mas brincalhões naquele tumulto de carnes suadas. Outros havia, porém, que não conseguiam nem isso. Alguns viajavam agarrados para fora dos carros, segurando-se nas ferragens com os pés e as mãos. Outros iam em cima, na cobertura dos vagões. Às vezes, no cruzamento de dois trens, o ar deslocado levava o chapéu de um ou de outro, que não podia segurá-lo por estar agarrado ao carro com uma das mãos, e com a outra ocupada pelas compras feitas ou pela pequena lata em que trouxera o almoço. Havia então, gargalhadas, pilhérias, assobios, que se multiplicavam pelos outros carros na celebração ruidosa do acontecimento insignificante.

— Tire a cabeça do caminho, senão vai também.

— Olha o teu miolo que ficou dentro do chapéu, desgraçado!

— Segura o pescoço, banana! Fiau!...

Não raro, em lugar do chapéu, ia o dono. O “rabecão” da Polícia vinha buscar o morto para o necrotério. E a viagem continuava. E a vida também.
Conhecendo a pequena resistência das suas pernas, o Ezequiel não ia, jamais, pendurado no carro, pelo lado de fora. Preferia esperar um ou dois trens, até conseguir um lugar menos perigoso, na plataforma. Naquele dia, porém, parecia que todos os operários dos subúrbios se haviam combinado para deixar o serviço à mesma hora. Os trens partiam repletos, e a estação Pedro II permanecia cheia de gente cansada e barulhenta, aguardando condução. Uma operária gorda, que há duas horas tentava tomar um carro, vira-se de tal modo comprimida pela multidão que tivera criança ali mesmo, socorrida pela Assistência Municipal. Com a roupa molhada no corpo, Ezequiel começou a sentir uns arrepios, como de febre. De repente, tonteou e teria caído, se o não amparassem. Anoitecia, e resolveu ir, de qualquer modo, no primeiro trem. Empregou para isso todos os esforços, empurrado os outros, comprimindo, fazendo o que os outros costumavam fazer. O mais, no entanto, que conseguiu foi a extremidade da plataforma de um carro de segunda classe, mas com um espaço tão reduzido que teve de apoiar o outro pé no carro seguinte. De súbito, a máquina uivou agudamente, e pôs-se em movimento. Ezequiel segurou-se com mais força e começou a pensar:

— A vida é, na verdade, muito cheia de injustiças. Estes homens todos que vão aqui, trabalham o dia inteiro para ganhar uma miséria. Almoçaram um pouco de feijão com um punhado de farinha. E para chegarem à casa, de regresso, têm que ir assim como eu vou. E ninguém se importa com isso... Eu ainda era menino, e já se falava em aumentar o número dos trens dos subúrbios à tarde e de manhã, na hora do pobre vir para o trabalho e voltar do trabalho. E no meu tempo é a mesma coisa que no tempo do meu pai...

O trem fizera uma curva, atirando-lhe para cima dos vizinhos. Ezequiel agarrou-se ainda mais nos dois ferros da plataforma. E continuou, consigo mesmo:

— Não é possível que pobre e rico sejam igualmente filhos de Deus. Uns são filhos, outros são enteados... Nenhum dos que vão aqui como pingente, viaja assim por gosto; mas todos vão rindo e brincando, para esquecer que são desgraçados.

Nesse momento, o trem fez uma curva. O carro deu um safanão violento, como um animal que desse um coice para libertar-se de alguém que lhe estivesse na garupa. Ezequiel tentou segurar-se. Mas foi tarde. Os dedos não se mostraram obedientes à sua vontade, e o seu corpo mergulhou entre os dois carros, desaparecendo imediatamente.
Vinte gritos partiram de vinte bocas. Aquilo era, porém, um espetáculo de quase todos os dias. O trem continuou, por isso, até à estação próxima, onde foram tomadas providências para a remoção dos despojos.
Nos dias seguintes os jornais noticiavam, em três ou quatro linhas, uma nova morte nos trens da Central. Uma das notícias, a mais extensa, estava assim redigida:


A viúva e os filhos de Ezequiel não tiveram conhecimento dessa notícia. Na tarde do outro dia, vieram ao necrotério, na cidade, para ver sair o corpo do seu marido e pai. E no necrotério mesmo se separaram, a viúva para procurar emprego, as crianças para pedir esmola.


***





[i] Das Obras Completas de Humberto de Campos, publicadas pela W. M. Jackson Inc. Editores, em 1945. Essa crônica aparece no volume 6, intitulado “Sombras que sofrem”.